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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Bátima levanta


(escrevi metade do texto há milhões de anos e simplesmente esqueci dele -q tem alguns spoilers)


Depois de ter assistido bonitinho todos os filmes, com intervalos pequenos entre cada um, finalmente posso dizer de todo meu coração que, dos três filmes mais recentes do Batman, meu preferido é o segundo.

O que não significa que o terceiro seja ruim. Ele é lindo e eu adorei e surtei e tudo o mais, mas existe uma coisa em The Dark Knight que ele não conseguiria pegar, e não estou falando só do Coringa.

Back in 2008, uma piadinha comum era falar do filme do Batman e responder “que Batman?”. Pra muita gente, o pobre morcegão ficou em segundo plano no seu próprio filme por causa do Coringa - eu caí nessa também. Só milhões de anos depois, assistindo de novo, foi que eu entendi como esse é o mais coerente de todos os filmes e como o Nolan amarrou muito bem todos os personagens. 

O mais interessante nisso tudo é que, enquanto eu assistia The Dark Knight, tive um vislumbre do por que de algumas vezes a arte ser capaz de acabar com a sanidade de uma pessoa. Não é uma questão de levar uma lição pra vida ou algo do tipo; quando, depois de levar um tempo contabilizando os votos no barco dos ~inocentes, uma pessoa se dá conta de aquele tempo todo passou e o barco dos criminosos ainda não os havia explodido, eu entendi o raciocínio do Coringa. Antes ele era um personagem - muito bom, diga-se de passagem - que fazia sentido, que tinha suas motivações, etc. Mas só depois de entender como ele funciona é que uma coisa assustadora acontece: o que ele faz passa a fazer sentido pra você também. Esse é um exemplo pequeno, mas já dá pra imaginar um gatilho maior.

Coloquei a trilogia do Batman num cantinho especial do meu coração como uma das melhores que já vi. Trilogias costumam cagar alguma coisa em pelo menos algum filme, então essa merece meu respeito por ter sido coerente o tempo todo. Okay que eu tô rindo até hoje da Marion Cotillard, mas nem tudo é perfeito, certo? E surtei tanto com o Joseph Gordon-Levitt que ainda não consegui escrever duas linhas coerentes sobre o rapaz até hoje, milhões de anos depois de ter visto o filme, porque sou dessas.

batman who? só vi o robin.


Outro aspecto legal das adaptações do cinema é que gente que nunca leu as HQs (oi eu) fica se coçando toda pra começar. Pretendo começar a ler Batman assim que conseguir dividir a atenção entre duas HQs diferentes (e quem sabe três, porque quero ler Watchmen antes de ver o filme).


Aliás, já que eu tô falando sobre isso: outro dia eu estava reparando em como o universo dos quadrinhos é completamente diferente. Não sei explicar, mas é uma coisa muito particular do formato, da divulgação, das próprias histórias e do modo como elas dialogam entre si, e nem estou falando só das HQs mais conhecidas. Admiro horrores quem consegue escrever & desenhar uma graphic novel independente, porque alimento meio que secretamente o desejo de fazer isso, mas é um formato tão diferente da “literatura comum”, vamos dizer assim, me arriscando a falar merda mesmo, que eu ainda não sei lidar direito. Digo que é diferente porque não se trata “apenas” de texto; existem as imagens, existe a fluidez que é diferente, existe toda a concatenação de ideias que é feita de outro jeito justamente porque é um outro modo de se contar uma história. E se eu posso experimentar novos materiais de desenho, por que não outras formas de escrever, não é mesmo?

domingo, 5 de agosto de 2012

Bátima começa


Voltando um pouco a escrever sobre filmes aqui, vamos falar de coisa boa, vamos falar de Batman.


Pra me preparar psicologicamente pro terceiro filme - que eu vi ontem e foi lindo e e e depois eu falo dele -, eu resolvi rever os dois primeiros, que eu já tinha assistido em um passado distante.

Tão distante que, quando reassisti, percebi que não tinha entendido nada do filme antes. Ou, melhor dizendo, que eu não tinha sacado nem a menor parte da dimensão da ~filosofia do Batman e da genialidade das tramas. Fiquei passada.

Vamos começar explicando que eu nunca li as HQs, então toda a referência que eu tenho de canon vem dos filmes. Ler HQs pra mim é um processo penoso e demorado, porque leio no computador (comprar não vai estar rolando), e agora eu resolvi focar em Hellblazer. Com isso explicado, vamos lá.

Obviamente vai ter spoilers, cuidado aí.

Antes dos filmes do Nolan, quem era o Batman pra mim? Era um cara muito rico e poderoso que, tal e qual o Iron Man, um dia resolveu ser um herói - só que com uma roupa particularmente complicada de usar. Capa, seriously? E pronto, era só isso. Eu nunca tinha entendido muito bem qual era a motivação dele.

Um apanhado dos meus “heróis” preferidos, até então: Homem Aranha e Constantine (Magneto não conta porque é vilão). Por que? Porque são dois fodidos. Mas eles ainda têm uma coisa: alguma forma de poder, nato ou adquirido. Heróis como o Iron Man ou a Viúva Negra nada têm além das suas mãos e/ou tecnologia avançada. Gosto disso porque dá uma humanizada maior no personagem fazer com que ele mesmo seja o construtor/criador do seu poder. Veja, se você nasce com uma característica especial, o ser herói tem a ver com lidar com isso. Se você constrói essa característica, você ainda está lidando com responsabilidades e escolhas, mas o sentido já muda um bocado.

E aí temos Batman Begins e o que eu chamo porcamente de ~~filosofia do medo~~ - que vai ter um fechamento lindo no terceiro filme. Gosto de heróis (ou, em outro tipo de história, simplesmente mocinhos) que andam no limite, que são cinza, que precisam fazer um esforço contínuo para não se corromper. Esse era Bruce Wayne no começo, exceto que ele já tinha se entregado. Numa jornada mais ou menos similar à de Tony Stark - porém mais complexa e, erm, mais longa -, Bruce resolve imergir naquilo que quer destruir. Salvar pessoas, proteger a cidade, fazer o bem? Não, a motivação inicial dele era vingança. Ele fez o caminho inverso e é assim que eu gosto.

"Why bats?"
"Because bats scare me."

Para vencer o medo, você deve se tornar o medo. Essa é a base, e ela é infinitamente mais profunda do que a minha ideia inicial de “um cara rico que resolveu ser herói”. O Batman é um símbolo sombrio, marginal e recluso nos seus próprios medos, assim como a própria Gotham City. Ele se afasta do papel de trazer esperança (mais sobre isso em The Dark Knight) e foge do reconhecimento. Aliás, eu gosto muito do fato de Gotham City ser fictícia. Isso dá uma liberdade bem grande pra criar contexto. 


Queria falar outras coisas, mas elas cabem mais no TDK e em outro post :) 

sábado, 5 de março de 2011

We're all a little sissy around here

Baixei Breakfast with Scot (2007) sem muita expectativa, só pra ter uma comédia reserva, por assim dizer, pra quando estivesse cansada de me debulhar em lágrimas com os filmes ~mais sérios~. E qual não foi a minha surpresa ao assistir e adorar o filme? Acho que eu tenho que fazer isso mais vezes: assistir sem esperar muito. Enfim, vamos à sinopse.

Eric e Sam vivem juntos e um belo dia se veem meio que obrigados a cuidar de Scot (com apenas um "t" mesmo), filho da ex-namorada do irmão de Sam. A mulher morreu e Billy, o ex-namorado, é um enrolão que está demorando demais pra voltar do Brasil. Pra não deixar o menino entregue ao serviço social, Sam e Eric ficam com ele, mas não sabem muito bem como lidar com o fato de que Scotr usa as jóias e a maquiagem da mãe, etc.

Como a maioria dos filmes que tratam desse assunto (caras não-afeminados tendo que lidar com caras afeminados), Breakfast with Scot é uma comédia, mas não um pastelão caricato. Primeiro vamos reparar no fato de que estamos falando de um casal gay que não sabe como proceder com o menino; ou seja, já começa mandando beijos pra quem acha que todos os homossexuais são, necessariamente, afeminados. Outro detalhe importante é que Eric era um jogador famoso de hockey até se contundir e virar jornalista esportivo; ele é uma pessoa pública e não quer que ninguém saiba que ele é gay.

O filme é simples e segue aquela fórmula básica sobre como é importante ser diferente e se aceitar, mas eu achei muito bonitinho e delicado. A originalidade está na situação inusitada do casal, que literalmente não sabe o que fazer. Não é apenas a questão de Eric não querer ser descoberto, mas que eles morrem de medo de que Scot sofra por simplesmente ser quem ele é, e em determinado ponto eles acham melhor reprimir isso. Se você usar maquiagem, jóias e roupas cor-de-rosa os garotos da escola vão bater em você. Se você não gosta de esportes, eles vão rir de você. Existe um padrão a ser seguido pra que a gente possa ficar segura. É pra enrolar a cabeça de qualquer um, não?


Detalhe que, quando baixei, nem sabia que era canadense. São os filmes canadenses conquistando espaço no meu coração sempre -q

É isso, não tem muito o que falar. É um filme que vale a pena, tanto por ser levinho e despretensioso (não é um retrato fiel da realidade, mas dá uma aliviada nela) quanto pela atuação do Scot (Noah Bernett) que, gente, é um amor. Super recomendo.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

If I wasn't a transvestite terrorist, would you marry me?

Eu já gostava do Cillian Murphy desde Sunshine - Alerta Solar, passando por Extermínio, Batman e Inception. Mais gostei vinte vezes mais depois de assistir Breakfast on Pluto (2005).


Em Breakfast on Pluto, Cillian é Patricia Kitten Braden, nascido Patrick, filho do padre local e da moça que trabalhava pra ele. Abandonado pela mãe e criado numa cidadezinha em que ninguém - além dos seus amigos - se dava muito bem com o seu jeito afeminado, Patrick decide ir procurar a mãe em Londres.

Eu adorei o filme. Não conheço praticamente nada da história da Irlanda, shame on me, mas sei o suficiente pra ter noção de que os anos setenta foram tensos por causa dos conflitos com o IRA e tudo o mais. Junte-se a isso o fato já comentado aqui algumas vezes de que os anos setenta também foram tempos difíceis em relação ao preconceito e, voilà, temos uma história e tanto.


Li numa crítica aleatória por aí que o Neil Jordan (diretor do filme, que dirigiu também Entrevista com o Vampiro) é bom em transformar histórias que inicialmente parecem simples em coisas ótimas, e é verdade. Entrevista com o Vampiro nas mãos erradas poderia ter se tornado um filme entediante - afinal, quem leu o livro lembra que descrição é o que não falta, né? Não é exatamente ação o tempo todo, é um livro sensorial. Mas essa sou eu desviando do assunto. -, mas se tornou um filme ótimo. Breakfast on Pluto segue o mesmo caminho, afinal, com essa sinopse você já pode imaginar um dramão dos grandes.

Não é exatamente um drama. Bom, ele é, mas não é bem essa a intenção, sabe? Tudo depende do personagem, e Kitten é uma sonhadora. Em tempos tão difíceis como aqueles, a solução que ela encontrou pra viver no mundo real foi fingir que nada era sério. Era tudo uma grande brincadeira, um sonho. E assim, vivendo na cidade que engoliu a sua mãe, ela vai procurando e sendo engolida também.

E tem o sotaque irlandês que é lindo; me faz lembrar os filmes mais antigos, não sei por quê. E as referências a Doctor Who <3 (isso me lembra que tenho que falar de DW aqui qualquer dia desses também) Enfim, recomendo.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Someone you put on a pedestal is always right

Hoje lhes apresento Xavier Dolan:


Descobri a existência do Xavier meio que por acaso, olhando as atualizações do Laranja Psicodélica e uma crítica no Cinema e Eu. Quando vi que a crítica do Luciano pra Eu matei minha mãe (J'ai tué ma mère, 2009) era boa, fiquei curiosa e vi o filme que, basicamente, fala sobre a tempestuosa relação do Hubert (interpretado pelo próprio Xavier Dolan) com a mãe. 

O fato é que, pelo que eu vejo, Xavier é bem o tipo de diretor que ou as pessoas amam ou odeiam, sem muitos meio-termos. Não acho que dê pra ficar exatamente indiferente. A primeira coisa que a gente deve lembrar é que o cara é jovem pra caralho e indubitavelmente talentoso. Mas existem dois pontos que a galere adora criticar:

1 - Que o rapaz é apenas um gay emo mimado chato pra porra.

2 - Que os filmes dele tem uma estética exagerada demais e personagens superficiais.

Sendo assim, hoje eu vou dar a minha singela opinião sobre esses dois pontos.

Primeiro, não fico tirando conclusões sobre como ele é como pessoa só por assistir J'ai tué ma mère. Afinal, somos todos bem crescidinhos pra saber separar o profissional do pessoal, não somos? Hubert (aka Xavier) é sim dramático e exagerado, mas quem não foi assim aos dezesseis anos? Quem nunca teve ódio dos pais pelo menos uma vez na vida, até mesmo por algum motivo extremamente bobo? Poucas pessoas. Pouquíssimas, eu diria.



Não acho que isso seja motivo suficiente para taxar o personagem de superficial. Ou, melhor dizendo, dizer que a construção dele é superficial, já que sabemos que existem personagens que precisam sim de uma certa superficialidade nas suas ações. De personagens adolescentes em qualquer lugar com pelo menos alguns traços de superficialidade temos aos montes.



Mas a primeira coisa que eu notei em J'ai tué ma mère, e que foi o que ficou de mais marcante pra mim, é que é um filme bonito. No sentido estético mesmo, com cenas extremamente coloridas (um alô pro cinema francês) e outras extremamente escuras, a ponto de a gente quase não conseguir ver os atores. Se é pra dizer que Xavier é dramático e exagerado, digo que ele é sim na direção. E isso não nem de longe é ruim; vide Almodóvar

Daí que anteontem vi Les Amours Imaginaires (2010).



Vou te contar uma coisa: fiquei sem ar. Não pense que é apenas porque tinha Xavier e Niels Schneider no elenco; o objetivo do slowmotion era mesmo nos tirar o ar, eu diria. Olha, se tem uma coisa que dá pra perceber que Xavier Dolan gosta, é câmera lenta. Há quem aponte aí mais um traço de exagero, mas nem acho. Muito pelo contrário, é justamente esse recurso o responsável por algumas das cenas mais bonitas dos dois filmes.

Ah, é, a sinopse.

Les Amours Imaginaires fala sobre dois amigos, Francis (mais uma vez, o próprio Xavier) e Marie, que belo dia conhecem o jovem Nicholas e, pluft, se apaixonam por ele. Cabelo francês, triângulo amoroso, que mais eu quero da vida, meu Deus?



Mas então.

O filme faz jus ao título que tem, porque é exatamente isso: não fala sobre o amor, mas sobre o que nós achamos que é o amor. Principalmente quando somos jovens demais. Pegamos um punhado de ilusões e vamos alimentando e alimentando até colocar uma pessoa num pedestal a tal ponto de que esquecemos quase completamente do que é real. E quem disse que precisa de um tempão pra isso? É praticamente instantâneo.

Mais uma vez, Les Amours Imaginaires é, acima de tudo, muito bonito. Mais colorido que J'ai tué ma mère, e tão angustiante quanto. Não é bem aquele filme que você vai assistir esperando ~ação~ e quilos de desenvolvimento; é mais pra ver e pensar. Ver e deixar que aquilo te fale de uma coisa que, de um jeito ou de outro, a gente já conhece. E, mais uma vez, a superficialidade está nos olhos de quem a vê.  



Claro que Xavier Dolan não é perfeito, né. Só quero ressaltar que o cara fucking vinte e um anos e já fez dois filmes lindos e que eu adorei, e que eu fico feliz de poder acompanhar a carreira dele assim, em tempo real. Ele ainda tem muito tempo pra se aperfeiçoar e, meu caro, se já tá assim agora, imagina quando melhorar.

(só mais uma coisa: o pouco conhecimento que eu tenho dos filmes franceses e europeus vem de filmes recentes, mas dá pra reconhecer muito deles no que eu tenho visto nos canadeneses. Na verdade, dá pra encontrar mais marcas do cinema francês nos filmes do Xavier do que em C.R.A.Z.Y., por exemplo. As marcas de que eu falo não são apenas as cores, mas uma certa falta de rumo - na vida, nos personagens, em tudo - que, se você reparar, é o que mais marca o cinema francês. É um cinema visualmente leve, mas que pode te arrastar até algo bem fundo. Não sei explicar.)

sábado, 11 de dezembro de 2010

Do you know what "special people" means?

Descobri a existência de Bem-vindo à casa de bonecas no blog Cinema e Eu - se bem que o nome do filme não me era estranho, talvez eu já tivesse ouvido falar antes e, consequentemente, fiquei interessada nos outros filmes do Todd Solondz. Quando assistir talvez fale deles também.

Mas então. Antes de qualquer coisa, uma situação hipotética.

Suponha que você acordou de bom humor, ou está feliz porque finalmente chegaram as suas merecidas férias (o que não é o meu caso, fuuu) e tá afim de ir ao cinema. Você chama uns amigos, ou então vai sozinho, com a melhor das intenções de se divertir e fugir da realidade, ou simplesmente comemorar a sua boa realidade.

Então Bem-vindo à casa de bonecas não é o tipo de filme que você escolheria pra essa ocasião.

Explico.



A sinopse é relativamente simples e a situação que o filme conta pode ser vista em boa parte dos filmes da Sessão da Tarde, principalmente naqueles ~clássicos~ dos anos 80 e 90. Uma diferença básica é que, nesses filmes, isso é o apenas mais um pedaço do pano de fundo. Aqui, em Bem-vindo à casa de bonecas, temos Dawn, uma menina de onze anos que é constantemente importunada na escola pelos mais variados motivos idiotas do universo. O principal delas é que ela é feia. (o que, convenhamos, ela nem é. mas né, desde quando se precisa de motivos reais pra implicar com os outros?)

Então, Moony, qual é a diferença entre filme e os outros tantos milhões que falam sobre bullying?

Te conto.

Primeiro convém lembrar que existe toda uma ~cultura~ do bullying nos Estados Unidos. Claro que bullying existe em todo lugar e em todos os níveis de intensidade, mas reparem que em basicamente todo filme americano que se passa em uma escola existe a mesma fórmula básica. Agora é a hora em que você diz que isso não acontece apenas em filmes americanos, e você está certo, mas convém também lembrar quais são os filmes que nos bombardeiam desde crianças. Exatamente. Os filmes americanos. Nada contra o cinema americano em si, é mais uma questão de quantidade mesmo. 

Anyway, o fato é que a gente, de tanto ver essa fórmula repetida, se acostuma com ela. Que fórmula é essa? A clássica divisão dentro das escolas, os valentões, os nerds, as meninas bonitas, as meninas feias, etc. Divisão essa que acontece em todas as escolas do mundo - e pra muitas pessoas continua pelo resto da vida - e a gente só precisa olhar pro lado pra ver, mas que já cansou de ser mostrada como algo inofensivo e engraçado na televisão e no cinema. 

Agora vamos voltar ao filme.



A diferença de Bem-vindo à casa de bonecas é que ele é um filme cru e direto. Sem fantasias ou eufemismos, ele mostra o que a Dawn sofre bem na tua cara, sem te dar tempo de pensar o que foi que te atingiu. Não é um filme que vá te fazer rir, ou talvez nem chorar (eu não chorei, REFLITAM), mas deixa aquela sensação no final, sabe? A sensação de que nada faz sentido e de que isso é o fundo do poço.

Porque é isso que acontece, sabe? Se existe uma coisa que não precisa de motivo nenhum pra acontecer, é o ódio. É o sentimento mais gratuito do mundo. Ele pode ter toda uma base profunda pra "se apoiar", digamos assim, mas também pode acontecer por causa de um simples bom-dia não dito.

Dizem que os filmes do Todd Solondz têm humor negro. Não é humor no sentido clássico da palavra, não é aquela coisa que vai te fazer rir porque é engraçada, mas sim é o que um cara no IMDB definiu bem como "o humor da fraqueza humana". Acho tenso e insensível quem chama esse filme de comédia, porque ele não é. Na boa, se tu acha que isso é comédia, daquelas que tu vê no cinema comendo pipoca e se cagando de rir... não sei, não, viu. 

Sabe aquela cena de quando você vê uma pessoa sendo assaltada praticamente ao seu lado e olha ao redor esperando que alguém tome a iniciativa de chamar a polícia e, quando vê que ninguém vai fazer isso, você finge que não viu e vai embora? Sabe quando faz uma piada de mau gosto sobre um colega e você não sabe bem o que fazer e então ri? Sabe quando você vê uma aglomeração de pessoas na rua e quando chega perto descobre que elas estão tirando fotos de um acidente de carro e acenando pra câmera do jornal? É essa a sensação.

No outro extremo, há quem não goste porque te deixa deprimido. Ele até está numa lista dos 35 filmes mais deprimentes ever. É claro que eu não gosto de ficar triste, mas não é por isso que vou fugir de filmes que me deixem triste. Gosto de filmes que me emocionam, porque isso significa que eles conseguiram atingir alguma coisa certa em mim. 

Enfim.

Ah, nos clássicos da Sessão da Tarde também não é incomum que os bullys se redimam no final, ou que tenham toda uma história dramática pra dar base ao que fazem com os outros e, especialmente, que as vítimas sejam anjos. Dawn não é um anjo, ela reage como um ser humano - especialmente um ser humano de onze anos - reagiria, mas isso também não a faz merecedora do que recebe. Nada faz, na verdade. Principalmente se você considerar o fato de que a realidade dela dentro da casa não é muito diferente da escola. Pra onde fugir quando os dois lugares em que você deveria ser mais amado e/ou respeitado são um inferno?

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Until the very end



Eu acredito que todo mundo que me conhece, tanto na vida real quanto na internet, sabe que eu sou fã de Harry Potter. Fã é eufemismo. Um graaande eufemismo. Enfim.

(a propósito, quem ainda acha que gostar de Harry Potter é "ser infantil" ou "hahaha, you fail" ou "oh, você é de uma seita satânica" atingiu um nível de retardo absurdo. como diria a Kath, merece ir dar uma volta no canavial de rolas.)

Eu poderia passar linhas e mais linhas falando sobre como Harry Potter foi importante pra mim nesses últimos nove anos, sobre como essa série me ensinou coisas como o valor da amizade e o absurdo de uma guerra, sobre como eu conheci muita gente maravilhosa por causa dela, e mais um milhão de coisas. Eu ainda vou escrever sobre isso, claro, mas agora não.

Hoje eu quero falar sobre o filme, Harry Potter and the Deathly Hallows (Relíquias da Morte aqui).

Eu quero falar sobre como eu fiquei feliz de assistir esse filme e de como ele é a coisa mais linda do mundo.

Mas, olha, vou te dizer uma coisa: não conheço nenhuma pessoa que não tenha gostado do filme. Nenhuma.  Dentre essas, apenas umas poucas não leram os livros, mas mesmo assim tá valendo. Só que, né, como nem tudo na vida é perfeito, estou tendo um dejá-vu do fim de Lost, que pode ser resumido em uma frase:

Paunocuzice de quem não entendeu porra nenhuma.

Explico.

Sabe, se uma pessoa vai assistir ao SÉTIMO filme de uma franquia, o mínimo que se pode esperar é que ela tenha visto os outros seis antes. E não acho nenhum absurdo esperar que ela também tenha tido pelo menos um pouquinho de interesse em ler os livros.

Daí, cara, se tu não prestou atenção nos filmes e/ou não leu nenhum livro, é de se esperar que ache chato um filme de duas horas e meia sobre uma história sobre a qual você não está entendendo porra nenhuma. 

Só que acontece que HP7 foi, acima de tudo, uma homenagem aos fãs

Eu não acho, sinceramente, que o objetivo de uma adaptação cinematográfica seja pura e simplesmente o dinheiro, independentemente de quem vai assistir, se fã ou não. Claro que acontece assim, mas não deve ser, sabe? Eu acredito que adaptações cinematográficas devem respeito tanto à história quanto aos fãs, e uma coisa leva à outra. HP7 respeitou os fãs, foi fiel ao livro, e o que me entristece vendo críticas ruins - não apenas críticas de críticos de cinema, mas de qualquer pessoa - ao filme é o fato de que elas não entendem. Não estou falando "elas não entendem" no sentido de "nhéééé, sou melhor que você porque li o livro e você é burro e nem sabe de nada", mas no sentido de que é muito fácil uma pessoa criticar uma coisa que não significa nada além de um blockbuster pra ela.

(e nem dá pra criticar como pura e simplesmente entretenimento porque, porra, tecnicamente o filme também tá impecável. super casaria com o diretor de fotografia, hein.)

Harry Potter não é apenas um blockbuster pra mim. Não é apenas uma série que fez sucesso. Eu literalmente cresci lendo esses livros e assistindo esses filmes, e fiquei realmente muito feliz que o filme tenha feito jus a tudo que eu senti com o fim. Vocês têm noção da puta nostalgia que dá ver o último livro transformado em cenas visuais? E, melhor, fielmente. Claro que faltaram algumas cenas - umas vão aparecer nos extras do DVD, outras não - mas o resultado geral, pra mim, foi perfeito.

O que a pessoa que nunca leu acha maçante, eu acho tocante. Os momentos entre Harry e Hermione, a síntese da amizade deles, o clima de guerra, de nostalgia, de cansaço, de tristeza. Eu morri de chorar não só porque choro por qualquer coisa, mas porque foi, acima de tudo, bonito. Foi muito bonito.

Eu sei que não é fácil de entender pra quem nunca sentiu isso, e talvez não seja fácil de entender até pra quem começou a ler agora. Porque, né, começar a ler agora é ter todos os livros e spoilers à mão. Não estou dizendo que não se deve ler ou que ler agora vale menos, mas é que dá pra perceber que é diferente. Eu sempre vou sentir falta disso. De esperar o próximo livro, o próximo filme, de não saber o que vai acontecer, de teorizar. De comprar o livro novo e ler pela primeira vez.

E eu acho que nunca vou conseguir escrever sobre isso sem morrer de chorar.

sábado, 30 de outubro de 2010

Qualidade, não trabalhamos


(um poster tão bonito! que desperdício.)


Então mês passado eu resolvi assistir Do Começo ao Fim.


Pra que, meu Deus?


O que eu tinha a dizer sobre o filme imediatamente depois de assisti-lo:


CARALHO QUE FILME RUIM 


O que eu tenho a dizer agora é muito mais bonitinho e fundamentado, então vamos lá.

O problema principal do filme pode ser facilmente rebatido pelo fato de que era exatamente essa a intenção do diretor, mas vou dizer assim mesmo: não. existe. conflito. É um comercial de margarina do começo ao fim. 

(aliás, uma maravilha a quantidade de trocadilhos idiotas que dá pra fazer com esse título)

A história, pra quem não sabe, fala sobre dois meio-irmãos (mesma mãe, pais diferentes) que desde crianças têm uma relação bastante íntima. Óbvio que, quando crescem, os dois ficam juntos e...

Oh, wait.

Não existe conflito. A sinopse acaba aí.

A intenção do diretor, na verdade, era justamente essa: mostrar uma visão alternativa e positiva sobre a relação dos irmãos na sociedade. Até aí tudo bem, mas o problema não é nem esse. O problema é que tudo foi tratado de uma maneira tão artificial que não tem como você acreditar no que está vendo.

Eu sempre digo que qualquer coisa - filme, livro, HQ, fic, novela, etc - tem que ser crível. Pode ser a realidade mais fantástica e surreal do todo o universo conhecido, mas tem que ser crível. Você tem que acreditar no que está vendo/lendo, porque é isso que te faz ser levado pela história, se identificar, se envolver.

Mas né.

Quando eu li as primeiras notícias sobre esse filme, fiquei super animada e feliz que o cinema brasileiro estivesse investindo em um assunto polêmico (que, diga-se de passagem, não era a homossexualidade, mas sim o incesto). Mas Do Começo ao Fim decepciona MESMO.

Não se enganem, isso não é preconceito com o cinema nacional. Existem muitos filmes brasileiros de ótima qualidade (inclusive um que assisti recentemente que vai virar post depois), mas infelizmente não é o caso de Do Começo ao Fim, que não soube como lidar com um tema tão delicado. A proposta era ter uma visão leve sobre o assunto, e tudo o que conseguiram foi algo nada natural. Exatamente o caso dos personagens gays que são colocados nas novelas e tratados com tanto exagero (tanto pro lado bom quanto pro ruim) que não há quem não perceba que aquilo tudo é muito falso.

Uma coisa que contribui muito pra isso no filme são os diálogos, que me fizeram morrer de vergonha alheia. Eu não sabia se ria ou se chorava. E, gente, pelo amor de Deus, o garoto mais novo... Juro que tem uma cena parece teatro de escola mal feito, ele leva um milhão de anos pra lembrar da fala e, quando lembra, parece que tá lendo um teleprompter.

Juro.

Outra coisa: como lembrou muito bem o Luciano do Cinema e Eu, ELES PULARAM A ADOLESCÊNCIA! Como assim, Brasil? Em um dia eram crianças, no outro já eram adultos, e a fase das descobertas, como fica?

Além de tudo isso, posso lembrar ainda da edição digna do Windows Movie Maker, os cortes sem sentido, as cenas que deveriam ser dramáticas me fazendo rir, a cena de pseudo-sexo digna de um mix de Malhação com novela das oito, a completa irrealidade do plot todo, ou pior, a completa falta de habilidade em lidar com um plot irreal, e outras coisas mais.

Assistam, se estiverem dispostos a perder duas horas das suas vidas e ter assunto pra falar mal depois

Pra não dizer que eu sou totalmente má, vou falar dos pontos bons do filme: a polêmica que causou antes de ser lançado. Assim como as novelas, essas tentativas fracassadas de lidar com temas delicados servem ao menos pra isso: pra fazer com que as pessoas falem sobre esses assuntos. Discutam, e não só fechem os olhos e finjam que não existe. No caso de Do Começo ao Fim, a intenção foi boa, mas faltou habilidade. Fazer o que, né? Tenho fé no cinema brasileiro, apesar de tudo.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

It's only love. What's everyone so scared of?


Dia desses eu estava dando uma olhada no Laranja Psicodélica, como sempre, quando vi o post do filme Get Real, do qual eu nunca tinha ouvido falar antes. Como eu gostei da sinopse e também tenho uma quedinha por filmes dos quais nunca tinha ouvido falar antes, baixei e assisti.


Get Real é um filme inglês de 1998, com o Ben Silverstone no papel principal. Que eu saiba, o filme mais conhecido que ele fez foi Lolita (a versão de 1997, não a do Kubrick), mas o rosto e o nome dele não me são desconhecidos. 

O filme não é nenhuma obra-prima do cinema mundial, não é um Inception da vida, e foi justamente por isso que eu gostei tanto dele: por ser absolutamente comum. O roteiro é simples, você sabe o que vai acontecer, às vezes até como vai acontecer, como num típico filme adolescente da sessão da tarde. Mas não estou dizendo isso como uma ofensa, muito pelo contrário.

Sabe qual é a diferença? Get Real nunca passaria na Sessão da Tarde ou em qualquer outro horário de maior público da televisão (aberta, principalmente).

Por coincidência (ou não), dia desses eu também ouvi o RapaduraCast sobre Classificação Indicativa, e então fiquei sabendo de algumas regrinhas que são usadas para classificar filmes nos EUA (e que não mudam muito de país para país, se você for olhar):
  • Se houver mais de um "fuck" falado, sem conotação sexual, o filme é automaticamente classificado como R (não recomendado para menores de 17 anos);
  • Se houver um "fuck" com conotação sexual, também vai pro R
(pra quem não sabe, to fuck é o verbo foder, em inglês)

Essas, claro, são apenas duas coisinhas simples que vou usar pra ilustrar o caso de Get Real, mas existem outros milhões de motivos que são usados na classificação.

Ok, agora vamos unir os dois assuntos:

Get Real é um filme sobre Steven (Ben Silverstone), um garoto de dezesseis anos que é gay. Só a sua amiga Linda (Charlotte Britain) sabe disso, e os caras da escola já implicam com ele mesmo sem ter a certeza, então ele obviamente nunca contou pra mais ninguém e não está especialmente interessado em dar mais motivos pra implicância (implicância é eufemismo, né). Como em todo filme adolescente que não se preze, ele calha de se apaixonar justamente pelo atleta da escola, o John Dixon (Brad Gorton), mas tudo bem. O ponto aqui é que é através dessa relação com o John que o próprio Steven vai amadurecendo.

Olha só que interessante: não foi pelo contato com o preconceito "externo" (aquele que vem dos colegas da escola, da família e etc) que ele amadureceu, mas sim com o preconceito "interno", aquele que vem de dentro do seu próprio relacionamento com outro cara, daquela coisa de eles mesmos não terem coragem de se assumirem diante de outras pessoas e, pior, diante de si mesmos.

É aí que entra a classificação indicativa. A classificação original do filme, na Grã-Bretanha, é 15 anos, mas nos EUA ele está como R. No Brasil nem se fala, porque o filme não chegou até aqui, mas eu não tenho a menor dúvida de seria classificado para 16 anos.

Se você for inocente e acreditar em ovelhas coloridas saltitantes, pode até acreditar que isso é perfeitamente explicado pela regrinha lá de cima, porque há mais de um "fuck" falado, ainda que não com conotação sexual.

Mas acontece que Get Real é um filme levíssimo. Não tem nada gráfico demais e até mesmo as conversas e referências a sexo podem ser perfeitamente ouvidas e compreendidas por (quase) qualquer pessoa de 14 anos, por exemplo. Na Alemanha ele foi classificado como 12 anos, pra você ver como são as coisas. Pra dar um exemplo mais próximo, na Argentina foi classificado para 13 anos.

Então, olha só: não é coincidência demais que basicamente todo filme com temática homossexual pegue no mínimo um R, ou 16 anos, no caso do Brasil, enquanto que o sexo heterossexual só falta ser passado na sessão da tarde, que é livre?

Agora imagine você se Get Real fosse um desses filmes comuns que a Globo vive reprisando, e se fosse classificado para 14 anos. Imagine aí o quão maior seria o público para esse filme, que é tão simples e justamente por isso é exatamente o que o povo precisa: um meio simples para transmitir a informação ao maior número de pessoas possível.

Mas, claro, que emissora vai se atrever a perder o seu fiel público conservador passando um beijo gay antes da meia-noite?

Bah.

Fica então a dica pra assistir Get Real, e depois eu volto pra falar sobre as tentativas um tanto toscas da televisão de inserir casais e personagens gays nas novelas. Se possível, falem aí nos comentários o que acham disso :)

terça-feira, 9 de março de 2010

I know now why God didn't heal Bobby. He didn't heal him because there was nothing wrong with him.

COMBO ANOS 70 - PARTE II

*

Quando penso na Sigourney Weaver, o primeiro filme que me vem à cabeça não é o fodão Avatar, mas sim o modesto Orações para Bobby (2009). Pena que ele foi feito apenas para a televisão e, portanto, nem é muito conhecido.

Orações para Bobby é como Milk, que você começa a assistir já sabendo que o protagonista vai morrer. E também é uma história real. Bobby Griffith se jogou do alto de uma ponte aos vinte anos, porque sua família (especialmente sua mãe, Mary) não aceitava que ele fosse gay.

Eu assisti esse filme em dois dias, metade x metade. E nem foi porque sou A_Maior_Procrastinadora_do_Universo, mas sim porque não consegui ver tudo de uma vez mesmo. Era muito, sei lá, doloroso.

E o pior era ver que Bobby, no começo, realmente acreditava que estava errado, que sua mãe queria curá-lo como se fosse uma doença, e aí voltamos a todo o preconceito e falta de informação que acometia os Estados Unidos na década de setenta, como em Milk. 

Eu não posso deixar que ninguém saiba que eu não sou hétero. Isso seria tão humilhante. Meus amigos iriam me odiar, com certeza. Eles poderiam até me bater. Na minha família, já ouvi várias vezes eles falando que odeiam os gays, que Deus odeia os gays também. Isso realmente me apavora quando escuto minha família falando desse jeito, porque eles estão realmente falando de mim. Às vezes eu gostaria de desaparecer da face da terra”.


Depois que Bobby morre, o tormento maior de Mary começa, claro. Se a homossexualidade é um pecado, então um garoto tão bom quanto Bobby vai direto para o inferno? O meu filho que nunca fez mal a ninguém está no inferno? Existem interpretações diferentes do que está escrito na Bíblia, que supostamente teria a confirmação do pecado mortal?

Não vou entrar na questão da religião aqui, mas é exatamente isso que ela começa a questionar. E começa a buscar informações e, finalmente, outros pontos de vista. Tarde demais? Sim.

Mas vamos ao que podemos tirar de bom: Mary Griffith se tornou uma grande ativista do PFLAG (Parents, Families and Friends of Lesbians and Gays). Hoje ela tem 74 anos e continua lutando pelos direitos dos homossexuais.


Foi tarde demais para o Bobby, mas ela mudou para ajudar outras pessoas que teriam uma história igual a dele.


(sim, haverá a Parte III. Tenham fé.)

sábado, 23 de janeiro de 2010

All men are created equal. No matter how hard you try, you can never erase those words.

COMBO ANOS 70 - PARTE I

* 

Não, eu não nasci nos anos setenta. Não tenho sequer a mais vaga idéia do que é ter vivido os anos setenta. Não, mentira, tenho sim. Livros e filmes e pessoas que nasceram nos anos setenta existem pra isso mesmo. Pra gente ter uma idéia de como foi. Vamos direto ao assunto?

Era uma vez uma Moony entediada. Ela resolveu assistir um filme, e foi ver Milk, que estava com muita vontade de assistir. Depois ela assistiu outros três filmes que se passam na década de setenta e pensou: putz, vou fazer um combo com isso.

Antes de qualquer coisa, lembra do que aconteceu nos tão falados seventies? A Wikipedia te ajuda. Resumindo, foram tempos difíceis na questão do preconceito, mas incrivelmente férteis na arte.

Como eu sei que não é todo mundo que tem tempo/disposição pra ler um post do tamanho do universo, vou dividir em duas partes. Dois filmes de cada vez, e pra não deixar ninguém deprimido e infeliz, um filme que vai te fazer chorar litros vai vir acompanhado de um filme que vai te fazer sorrir (que lindo, não?)

*

Milk – A voz da igualdade (Milk, 2008)

Harvey Milk foi um pioneiro dos direitos homossexuais nos Estados Unidos, como o primeiro homem abertamente homossexual eleito para um cargo oficial na Califórnia: supervisor da cidade de San Francisco. Foi assassinado em 1978 pelo ex-supervisor Dan White.

Pois muito bem. O filme, do diretor Gus Van Sant, conta essa história. Milk só se tornou ativista depois dos quarenta anos, quando começou a se envolver na política para lutar por direitos para os homossexuais e, numa escala maior, para todas as minorias desfavorecidas.

O filme, em si, visualmente falando, é ótimo. As cenas são perfeitamente fundidas com imagens de documentário. Lindo. Todo o clima dos anos setenta e de como era difícil ser gay naquela época, naquela cidade, naquele país, naquele momento.

Bom, não é novidade, porque eu sou chorona em filmes mesmo, mas: chorei, e chorei litros. Do início ao fim. Chorei porque é revoltante saber que uma lei que proibiria professores homossexuais de ensinar quase foi aceita, porque as pessoas realmente acreditavam (e, não se iludam, muitas ainda acreditam. muitas mesmo) que os gays saíam por aí recrutando crianças para a perversão porque não podiam ter filhos, porque acreditavam que a pedofilia era um crime muitos menos grave do que ser gay. Chorei nas cenas dos movimentos, das revoltas, das eleições, em tudo. Porque se sempre tem alguém pra dizer besteira, também sempre tem alguém pra tentar mudar isso.

Milk mostrou que, se você questiona a homossexualidade, deve questionar também a heterossexualidade. Lembrou que todos, absolutamente todos, nasceram iguais e com os mesmos direitos e que isso é imutável. Ele sabia que poderia morrer e foi em frente, ele sabia que era difícil, que era muito e muito difícil como ainda é hoje, e foi em frente. Essa é a questão.

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C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor (C.R.A.Z.Y., 2005) 


Eu tenho uma história de amor com esse filme desde o momento em que ele estreou aqui no Brasil, há alguns séculos. A primeira coisa que eu notei foi o cartaz, pelo qual me apaixonei loucamente. Depois, pela sinopse. E, pasmem, eu só assisti o filme há uns dois dias atrás.

Enfim, C.R.A.Z.Y. é um filme canadense que conta a história do amor de um filho pelo seu pai e de um pai pelos seus filhos. Simples, não? O título vem da abreviação do nome dos cinco filhos do casal Beaulieu: Christian, Raymond, Antoine, Zachary e Yvan. O pai deles é apaixonado pelas músicas de Patsy Cline e em especial por, adivinhem, adivinhem... Crazy.

(momento moony: também passei a vida toda ouvindo essa música, mas na voz do Julio Iglesias, de quem a minha mãe é fã. Mais uma coisa pra que eu me identificasse pra caramba com o filme)

Zac, que é quem nos conta a história, nos mostra a Quebec dos anos 60, 70 e 80, mas em especial a de 70, quando ele é adolescente. Desde pequeno, quando foi acidentalmente pego pelo pai vestindo as roupas da mãe, Zac é taxado pelos irmãos e todos os outros como a bicha da família. Não é uma situação agradável pra ninguém, principalmente se você tem cinco anos e seu pai é bem conservador.

C.R.A.Z.Y. acompanha Zac desde a infância até os vinte e um anos. Ele ama o pai, ama demais, e não quer desapontá-lo. Mas, pra isso, precisa viver numa mentira, precisa ficar com tudo pra dentro de si.

O filme é bonito, sutil. É realmente a história de uma pessoa, é engraçado, é feliz, é triste, te faz rir e chorar (bom, tudo me faz chorar...) e tudo o mais. E, se você lembrar de tudo o que estava acontecendo nos anos setenta, vai ver como tudo isso enriquece ainda mais o filme e suas referências. O auge do glam rock, os óculos, as roupas, os carros. Os discos. Pink Floyd. Sexo, drogas e rock and roll, literalmente.




Eu posso dizer com toda a certeza que é um filme maravilhoso e que você vai gostar, nem que seja um pouquinho. Que você torcer pelo Zac, que vai se sentir como um velho amigo ou até mesmo mais um dos irmãos. Só não posso te garantir o que você vai sentir, assim, como eu senti. Não sei bem explicar essa parte. Esse filme me pegou de um jeito que há muito tempo não acontecia. Ele estava falando comigo. Era pra mim. Acontecia comigo, e se acontecia com você, vai me entender.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Only the French... only the French would house a cinema inside a palace.

(se você assistiu The Dreamers, deve reconhecer essa frase)


Ora, ora, vejam só. Estou quase oficialmente em férias. O que significa que eu vou passar duas semanas super feliz e vou prometer escrever muito, daí eu vou escrever pouco e passar o resto de janeiro entediada, reclamando que não tenho nada pra fazer e louca para ter aulas de novo.


Ê, vida boa. É assim que eu gosto. (não, isso não foi ironia)


Bom, enquanto eu não termino de ler o livro que estou lendo, vamos de filmes mais uma vez:


XXY (2007)


Você já assistiu algum filme argentino? É, eu também não tinha assistido, até semana passada.


Antes de tudo, mais uma pergunta: é menino ou menina? Sim, isso é o que as mulheres grávidas ouvem constantemente. Imagine então quando a pergunta está se referindo a você mesmo e você não sabe responder.


Parando de enrolar, vamos a uma sinopse básica: Alex (Inés Efron) é uma garota de quinze anos que nasceu com a síndrome de XXY (ou ainda, Síndrome de Klinefelter). Ou seja, ela é uma hermafrodita; tem características sexuais tanto masculinas quanto femininas.


Pois muito bem. A arredia Alex (interpretação ótima, diga-se de passagem) e seus pais vivem na costa Uruguaia e recebem a visitas de um casal de amigos e seu filho adolescente. A história se desenrola ao redor do relacionamento entre os jovens e a decisão de se tornar completamente mulher ou homem.



O primeiro motivo pelo qual eu recomendaria o filme seria o fato de ser bonito. Visualmente mesmo. Tem um ar melancólico, talvez meio sombrio, denso. Tenso. O segundo seria a própria Alex, uma mistura que “conserva a delicadeza do feminino, mas sabe expor na tela a agressividade do mundo masculino.” (daqui, ó)


O terceiro seria o conjunto da obra, que cria um filme bonito, angustiante e realmente bom. Eu gostei, mesmo. Sem maiores delongas e sem uma “solução” pretensiosa para o drama de Alex, um retrato da ambigüidade entre os sexos. Literalmente.


*


A Bela Junie (La Belle Personne, 2008)



Uma dica: assista Les Chansons d'Amour antes de A Bela Junie. Vou explicar por quê.


E, sim, vamos de Garrel mais uma vez. E em mais um triângulo amoroso.


A Bela Junie é um filme de Christophe Honoré, mesmo diretor de Chansons. Feito apenas um ano depois desse último, se você ver os dois filmes vai perceber o quanto eles têm em comum (inclusive boa parte do elenco).


Junie (Léa Seydoux) é uma garota de dezesseis anos que muda de escola no meio do ano letivo, depois da morte da mãe. Lá ela logo se enturma com os amigos do seu primo e começa a namorar Otto (Grégoire Leprince-Ringuet). No entanto, o professor de italiano, Nemours (Louis Garrel) se apaixona loucamente por ela.


Marca registrada de Honoré, aqui também temos as histórias paralelas dos coadjuvantes (que, para mim, é o mais fascinante), as vidas que se entrelaçam, o clima nostálgico, o tom cinzento, chuvoso, casual e delicado. E, dessa vez, a sensação de desgraça iminente e de algo incompleto.



Resultado: sim, eu gostei bastante do filme. O que mata um pouco a história é só a sensação de algo parecido com Chansons e, portanto, não completamente original, mas isso talvez se deva também ao fato de que assisti pouco tempo depois dele.


Ou seja, sugiro que assista Chansons primeiro, pra pegar como referência de qualidade.


E olha o Garrel aí, com a clássica foto do cabelo francês: