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sábado, 20 de outubro de 2012

Filadélfia, you're doing it wrong

Eu estava na biblioteca outro dia, procurando um livro leve pra ler e procrastinando os outros cinquenta que estão esperando aqui em casa, quando me deparei com Filadélfia. Fiquei surpresa porque não fazia a menor ideia de que era um livro e dei uma folheada pra ver se era a mesma história ou só um título igual. E aí fiquei mais surpresa ainda quando vi, na capa, escrito assim: "Baseado no roteiro de Ron Nyswaner".

Não consigo lembrar agora de nenhum livro que eu tenha visto que tenha sido baseado no roteiro de um filme; já vi, claro, os roteiros comercializados em livros (Bastardos Inglórios, Educação, etc), mas só. Daí a minha surpresa, já que automaticamente penso que o livro vem antes do filme. Então beleza, resolvi pegar.

Li em dois dias, sofrendo muito.

Gente.

Que livro horrível.

Pra ser justa, o problema não está no plot - e nem poderia, né, porque o plot já existia e o filme é muito bom. O que o autor - Christopher Davis - fez foi, basicamente, dar uma romanceada no roteiro do filme, mas eu achei essa adaptação super cagada. Mais uma vez tentando bravamente ser justa, é provável que boa parte do problema esteja na tradução (cagadíssima) e na edição (inventem um superlativo para "cagadíssima" e apliquem nesse caso).

Filadélfia é um daqueles raros casos em que fiquei com raiva do livro; porque ele tinha potencial pra ser muito bom, mas é extremamente superficial. Se eu tivesse lido antes de ver o filme, o efeito teria sido melhor, but still. Ah, estou sendo mal-educada, deixa eu dizer do que, afinal, se trata a história.

Filadélfia
Autor: Christopher Davis
Ano: 1993
País: Estados Unidos
Sinopse: Andrew Beckett é um excelente advogado que trabalha numa firma super importante de advocacia (orly). Um dia seus chefes colocam nas suas mãos um caso importantíssimo, e tudo vai bem até uma possível sabotagem que o fez parecer incompetente. No dia seguinte, Andrew é demitido, mas ele percebe que a sabotagem foi uma desculpa para demiti-lo por conta da AIDS que, até então, ele estava conseguindo esconder dos patrões. Depois de ser recusado por um monte de advogados, ele consegue a ajuda de um relutante Joe Miller, um advogado preconceituoso que tem indenizações como especialidade, para processar a firma que o demitiu.

O filme teve Tom Hanks e Denzel Washington nos papéis de Andy e Joe, respectivamente, e assim como o livro, foi lançado no começo da década de noventa. O contexto você pode imaginar: epidemia de AIDS e uma falta de informação gritante sobre a síndrome; uma ignorância que potencializava (e, a bem da verdade, ainda potencializa) a homofobia. O fato de Joe ser negro serve de contraponto ao seu próprio preconceito; diversas vezes ele se pergunta como caralhos pode ser tão intolerante tendo ele mesmo sofrido discriminação na vida, ainda que por motivos diferentes. Em outras palavras, a história é um prato cheio de temas importantes e nada tem de levinha.



Agora vou tentar explicar direto por que, afinal, o livro é tão ruim.

É de se pensar que deve ser necessário fazer um esforço muito grande pra errar a mão numa história que já estava pronta, mas nem acho que seja o caso. Roteiros usam uma linguagem diferente e, sinceramente, nunca tive paciência para lê-los. O que posso imaginar de mais óbvio seria a linguagem do livro ficar meio teatral, mas também não foi o caso. Ficou só superficial. Me deu a impressão de que o autor pegou as falas do roteiro e criou um enchimento de descrições entre cada uma delas pra que a coisa soasse como um romance, mas não funcionou muito bem. E eu não sei explicar isso de um jeito mais específico, mas o modo como ele amarra as sequências de acontecimentos - por exemplo, o fim de um capítulo pra outro - faz tudo parecer uma fic. E uma fic ruim.

Tinha uma outra coisa também que me irrita muito em qualquer livro em que isso aconteça, e não sei dizer se no original já é assim ou se foi coisa da edição, mas dá uma olhada nesse trecho:

"(...) Nunca lhe acontecera antes, e a primeira pessoa a pôr as mãos nele, com raiva, porque ele era gay, tinha de ser um advogado no lado gay de uma causa que vinha recebendo a maior publicidade."

É, a palavra "gay" está em itálico nas duas vezes em que aparece. Aí você pensa que pode ter sido porque, nessa situação específica, o autor queria realmente enfatizar a palavra, mas não. TODAS as ocorrências da palavra "gay" estão em itálico no livro, e isso é um negócio que me irrita muito. Como também aconteceu com outras palavras (drugstore, por exemplo), eu acredito que tenha sido treta da edição, mas mesmo assim é um negócio muito chato. Além de quebrar o ritmo em que eu tô lendo, ainda coloca uma ênfase desnecessária numa palavra que, por si só, tem mais background do apenas ser escrita em inglês. Me parece que colocar gay em itálico toda vez que a palavra aparece é exotificar o seu significado, como se estivesse falando de algo totalmente alheio à realidade e às pessoas em geral - e contribui para isso o fato de que pouquíssimas outras palavras receberam esse tratamento (de cabeça mesmo, só lembro de drugstore).

Ah, além disso, tem umas tosquices na tradução também (falsos cognatos traduzidos literalmente, por exemplo) e toda frase iniciada com O tem um zero no lugar da letra. Ah, e o autor usa o termo "homossexualismo" no lugar de "homossexualidade". Oh well.

Algumas partes soam como registros jornalísticos, outras soam como nada mesmo. O companheiro de Andy, Miguel, é retratado quase como um estereótipo do latino ingênuo de sangue quente, mas não posso dizer muito em sua defesa no filme porque não fiquei com nenhuma impressão marcante do personagem do Antonio Banderas. A relação de Joe com a homofobia também podia ter sido melhor retratada. 

Um pontinho para o livro: as menções ao sexismo. Não lembro de ter ouvido alguma no filme. Mas, de modo geral, essa leitura não foi a melhor das experiências, rs.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O Conde de Monte Cristo


Daí que eu terminei de ler O Conde de Monte Cristo um dia desses.

Achei apenas sensacional. Existem várias versões em filme desde 1922 até 2002, e eu só assisti esse último (o com o Jim Caviezel). É muito bom, mas eles tiveram que cortar quilos de informação pra fazer a história caber em duas horas. Em 800 páginas de livro (livros, na verdade) você tem a dimensão certa da vingança de Edmond Dantès.


(Jim Caviezel sendo lindo, mesmo todo fodido)

O livro acompanha Dantès por vinte e três anos, desde os eventos anteriores à sua prisão injusta até o final da sua vingança. Depois de retornar à Paris com o misterioso título de Conde de Monte Cristo, Dantès - que, mais para o final, começa a se referir a si mesmo como um instrumento da ira de deus, ou como o próprio deus - decide arrancar o mal pela raiz. Como? Se vingando dos homens que provocaram a sua prisão. Só isso? Não, pra garantir é melhor destruir a família toda de cada um deles e não deixar pedra sobre pedra na distinta alta sociedade parisiense. The ultimate vendetta.

O preconceitozinho que eu tinha com o livro antes de lê-lo tinha a ver com 1. o gênero, 2. a Martin Claret e 3. a preguiça. Começando pelo final, a preguiça eu venci no dia em que resolvi pegar pra ler, e a partir daí não precisei mais fazer esforço nenhum pra terminar - na verdade fiquei até com pena de ter que acabar. A Martin Claret eu também tive que superar, mas, se isso ajuda, a tradução deles é a de domínio público. Tem errinhos e coisas estranhas, mas dá pra engolir. E, por fim, o gênero aventura. Costumo achar divertido em filmes, mas meio boring em literatura se não estiver misturado com outras coisas. Felizmente a maioria dos livros não é um bloco único de gênero, então todos podemos ser felizes.

O Conde de Monte Cristo não é aventura no sentido Indiana Jones da coisa; não é como se houvesse cavaleiros de capa e espada duelando o tempo todo, que é o tipo de coisa que me faria suspirar profundamente de tédio. Na verdade, ele tem muito mais ~momentos de reflexão~ do que eu esperava. 

(existem todos os spoilers do mundo do parágrafo abaixo em diante)

Torcer na ficção por coisas e atitudes que se repudiaria (ou fingiria repudiar) na vida real acontece o tempo todo. Dantès não é um herói clássico e bonzinho; ele quer vingança, ele muda drasticamente e faz disso o objetivo da sua vida, até quase a loucura (lembra do instrumento da ira de deus? isso aí é Dantès já começando a duvidar da sua sanidade). Ele destrói a vida de gente inocente só porque estão no seu caminho, planeja, se infiltra e executa tudo minuciosamente. E, ainda assim, depois de dedicar a sua vida à vingança, à medida que o livro avança ele começa a se questionar se não teria, afinal, passado do ponto. O motivo? O amor. Dele? Não, o de Valentine e Maximiliano.

Nesse ponto eu preciso falar das mulheres do livro, que não escapa de ter lá a sua dose de machismo e racismo. No entanto, apesar de a história girar em torno de homens, eu achei que ela até tem uma participação de mulheres mais forte do que seria de se esperar. Valentine, a Sra. de Villefort, Eugènie, Mercèdes e Haydèe são, cada a uma a seu modo, personagens fortes e multi-dimensionais.

Valentine é uma mocinha clássica do Romantismo, pura, recatada e que não consegue nem pensar em desobedecer as ordens do pai, ainda que isso signifique o sofrimento de se casar com um homem que mal conhece e ainda estando apaixonada por outro. Odiada pela madrasta, seu único refúgio é o avô, o Sr. de Noirtier, que depois de uma apoplexia (derrame?) ficou completamente paralisado, podendo mover apenas os olhos (aliás, o sistema usado por ele e Valentine para se comunicar é uma versão mais primitiva da usada em O Escafandro e a Borboleta). 

A Sra. de Villefort é meio virada das ideias e é a principal serial killer do livro, depois do próprio Monte Cristo. A diferença é que pra ela deram o clichê do veneno (“uma arma tipicamente feminina”) e a motivação do dinheiro; Valentine, por causa da fortuna da sua mãe E do avô, ia ficar muito mais rica do que o seu meio-irmão. O final da Sra. de Villefort é o momento em que o Conde começa a se questionar se está sendo justo ou não.

Eugènie é um caso à parte. Me impressionou o fato de ela não ter sido pintada como um “mal exemplo”.A filha do Barão de Danglars, banqueiro e um dos principais alvos do Conde, é tudo o que se espera que uma “boa filha e boa mulher” não seja. Ela é firme e inteligente, não quer se casar, não quer cuidar da casa, não quer se preocupar com joias e beleza. Só quer ser livre e tocar piano, ser artista. E nada disso é pintado como algo essencialmente ruim. Seu final é o meu preferido: depois de fugir do próprio casamento (arranjado pelo Conde, obviamente, que também planejou a prisão do noivo - meio-irmão da noiva, olha o nível da trollagem - com um timing ótimo que permitiu a liberdade de Eugènie e, de quebra, a infelicidade da família Danglars), ela se veste de homem para poder passar da fronteira, taca uma tesoura nas tranças e foge com a amante amiga Srta. D’Armilly. Mortas de felizes, as duas partem para a Bélgica numa carruagem.

O filme foi que me iludiu, me fazendo pensar que no final o Conde e Mercèdes ficavam juntos de novo e que o Albert era filho deles. Erm, não. Isso aí foi licença poética, e das grandes. Mercèdes e o filho não têm o mais feliz dos finais. Não gostei muito do que foi feito da Mercèdes do segundo volume em diante, mas isso talvez tenha um pouco a ver com o fato de eu estava esperando demais dela.

Pronto, prometo que vou parar de falar desse livro, hahaha. Mas recomendo mesmo, pelo desenvolvimento do Edmond e pela complexidade da trama. Ainda vou rever o filme e ver o que fizeram dele.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Just because you're used to something doesn't mean you like it. You're used to me.


#28 - Last book you read


Precisamos falar sobre o Kevin
Autora: Lionel Shriver
Ano: 2003
País: Estados Unidos

"(...) durante boa parte da infância de Kevin, aquelas feições estreitas, angulosas, me torturaram com meu próprio reflexo. Mas, neste último ano, seu rosto começou a se encher e à medida que vai se alargando, reconheço a sua ossatura mais larga, Franklin. Embora seja verdade que, no passado, busquei faminta na fisionomia de Kevin alguma semelhança com o pai, agora vivo brigando com essa impressão maluca que ele faz de propósito, para eu sofrer. Não quero ver a semelhança. Não quero detectar os mesmos maneirismos, aquela palmada característica, de cima para baixo, quando você descartava algo porque era insignificante, como, por exemplo, a ínfima questão de nossos vizinhos, um atrás do outro, proibirem as crianças de brincar com o nosso filho. Ver seu queixo forte retesado num ângulo belicoso, seu largo sorriso ingênuo retorcido num esgar malicioso, é como considerar meu marido possuído."

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Em abril de 1999, dois estudantes mataram treze pessoas, feriram outras vinte e um e depois se mataram no que ficou conhecido como o Massacre de Columbine. Esse episódio é, até hoje, o mais conhecido caso de atiradores na escola - que já não são poucos. Filmes, livros e documentários sobre isso não têm em comum apenas se tratar de um mesmo tema, mas todos se debruçam no que parece ser a questão crucial em torno da carnificina de qualquer natureza: por quê? O que motiva pessoas a cometerem assassinatos em massa? Ou, especialmente, o que motiva adolescentes - ou até mesmo crianças - a fazê-lo?

Quatro anos depois de Columbine, o livro Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver, foi lançado. Nele, a autora conseguiu construir uma trama extremamente original sobre o massacre escolar fictício cometido por Kevin Kachadourian. O pulo do gato foi não apenas a narradora pouco usual em histórias desse tipo – a mãe do assassino é quem escreve as cartas que formam o livro -, mas a sua própria estrutura que consegue se desconstruir e amarrar suas próprias pontas de uma maneira nem sempre vista por aí.


Precisamos falar sobre o Kevin é vendido como a história de um psicopata. Achei interessante o fato de não ter encontrado a palavra em nenhum momento no livro, mas desde que o leitor tenha algum conhecimento do seu significado, não é difícil fazer a relação. A psicopatia é, numa explicação superficial, a incapacidade de sentir empatia para com as pessoas. Nos últimos anos, o termo e os sinais que ajudam a identificar o psicopata têm-se popularizado.

Eva Khatchadourian escreve para o ex-marido, algum tempo depois do massacre, para tentar entender o que aconteceu. Não é uma simples exposição de fatos; são sequências e sequências de pensamentos que tornam até difícil acreditar que estamos lendo sobre pessoas que não existem – uma qualidade importantíssima na ficção. Eva, descendente de armênios, cosmopolita, dona da sua própria agência de viagens e ironicamente portadora do nome da mãe de todos os homens, casa-se com o homem que menos esperaria amar: um americano. Refletindo sobre o que afinal fez com que Kevin viesse ao mundo, a resposta é perturbadora: ela não queria ter um filho. Aliás, o livro todo é perturbador por tocar no que talvez seja uma das relações emocionais mais delicadas e sacralizadas de todas: a relação mãe e filho. Está exposto ali aquilo que se tem medo de dizer e mais ainda de entender: nem sempre amamos nossos filhos. E, pior ainda, é possível que os odiemos.

Como seria de se esperar, é comum retirar daí a conclusão de que Kevin se tornou um assassino por já ter nascido “rejeitado” pela própria mãe – o que considero uma conclusão no mínimo superficial. A reflexão de Eva sobre todos os anos em que conviveu com o filho podem ser tudo, menos simples, tornando impossível retirar dali apenas argumentos de causa e efeito diretos. Isso também é perturbador: a possibilidade de não existirem respostas, sendo que elas são exatamente aquilo que tanto queremos.


Kevin Khatchadourian passa longe do que se considera uma criança “normal”; literalmente desde o seu nascimento, Eva desconfia que existe algo de errado. Passando de um bebê que não para de chorar quando está sozinho com a mãe até uma criança que contrasta seu completo desinteresse em relação a qualquer estímulo com uma dissimulação assustadora para alguém tão pequeno, ela tenta entender o que move o filho. Seria o tédio em relação a qualquer coisa que o mundo pudesse lhe oferecer? Seria uma raiva injustificada contra tudo? Seria uma desordem afetiva, os esforços que não foram o suficiente, uma necessidade constante de representar um papel, seria puramente apatia?

Como se não bastassem todas essas questões que são o suficiente para manter vários profissionais ocupados, a narrativa tem uma condução que não posso classificar de outro modo que não excelente. Estou fazendo um esforço para encontrar algum defeito, mas confesso que não estou obtendo sucesso nenhum na minha empreitada. Talvez haja uma pequena perda do ritmo na narração de fatos que Eva não presenciou diretamente, mas nada que chegue a prejudicar o livro – que teve nada menos que o efeito de me derrubar completamente assim que terminei de ler as linhas finais. Não existe uma maneira de ser forte lendo algo tão perturbador, que toca tão profundamente naquilo que menos somos incentivados a pensar. Não é uma descrição qualquer de uma história comum; além de passar a quilômetros de distância do clichê, estamos lendo pensamentos vindos de uma pessoa, realmente tentando procurar algum sentido naquilo em que parece não haver nenhum – e, pior, tendo que se deparar com a possibilidade de que, bem, talvez simplesmente não haja.

Acho provável que não exista uma expressão mais eficiente para descrever Precisamos falar sobre o Kevin do que um soco no estômago

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Day 29: Book you’re currently reading

Day 29: Book you’re currently reading

Daí que um dia eu ganhei os dois volumes d'O Conde de Monte Cristo (eu nunca sei se Monte Cristo é junto ou separado) e pensei: poxa, legal, mas que preguicinha de ler, deve ser chato que só a porra. Enrolei um pouquinho, finalmente decidi ler e... bem, digamos que foi uma das maiores surpresas literárias que eu tive esse ano.

Autor: Alexandre Dumas, pai
Ano: 1844
País: França

Era uma vez um rapaz de dezenove anos muito honesto e meio inocente chamado Edmond Dantès. Tudo ia bem na vida de Edmond: ele se tornaria capitão do navio onde era imediato, ia ter mais dinheiro pra cuidar do pai e se casaria com o amor da sua vida, Mercedes. Mas essa felicidade toda incomodava Danglars, outro marujo do navio que tinha ambição de se tornar capitão, e Fernand, amigo de infância de Mercedes que estava apaixonado por ela e não fazia nenhuma questão de que o casamento acontecesse. Uma armação envolvendo uma suposta carta para Napoleão acaba fazendo com que Edmond seja preso como traidor bonapartista. Na prisão ele conhece o abade Faria, que o ensina tudo o que sabe, e Edmond consegue fugir treze anos depois de ser preso, encontrar o tesouro do abade (que morreu antes de conseguir fugir) e volta irreconhecível como o Conde de Monte Cristo, distribuindo justiça para os amigos e vingança para os inimigos.

Eu vi essa história pela primeira vez no filme de 2002 (aquele com o Jim Caviezel) e lembro de ter gostado. Quando vi os dois volumes enormes do livro, fiquei pensando em como fizeram pra resumir tudo aquilo. Descubro quando rever o filme e prestar mais atenção.

A minha surpresa foi ter gostado tanto do livro. Quer dizer, estar gostando, porque ainda não terminei. É realmente envolvente, e o cara sabe fazer um suspense legal no fim dos capítulos, que são curtinhos - se bem me lembro da wikipedia, o livro foi originalmente lançado em fascículos, provavelmente por isso o formato e os ganchos emocionantes nos finais dos capítulos. 

Vendido como o "gênero de capa e espada", O Conde de Monte Cristo é mesmo uma aventura, mas não deixa de ter lá as suas vibes psicológicas. Afinal, estamos falando de um rapaz preso injustamente por treze anos (Sirius Black, anyone?) que tinha como único incentivo de viver a vontade de entender o que lhe acontecera e de se vingar de quem tinha lhe roubado a vida. Tô aqui arrependida de ter pensado que era chato.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Day 12: Book that is most like your life (e um aviso)

Antes de tudo, o aviso:

A partir de hoje, vocês também me encontram no Minoria é a mãe (sim, lá uso meu nome). Recomendo loucamente o blog, e recomendaria mesmo que não participasse dele. Trust me, vale a visita :)

Day 12: Book that is most like your life

Autor: Caio Fernando Abreu
Ano: 1982
País: Brasil


frescos morangos vivos vermelhos


Sim, eu sei o que se fala do Caio pela internet afora (e da Clarice também. Caio, aliás, era grande admirador dela). But I don't give a single fuck, e não digo isso pra pagar de blasé nem nada do tipo: é que eu realmente não me importo e nem tenho interesse o suficiente pra tentar me importar. Um dos fatos fundamentais da vida é: sempre vai haver alguém que não gosta do que você gosta e vice-versa, deal with it. Eu muito raramente vou estar interessada no fato de um autor ser bem aceito pela crítica ou não, ter influência x ou y, ter um estilo considerado z ou w. Eu vejo se gosto ou não, e é assim que funciona. Li Caio, gostei, então é o suficiente.

Isso posto, vamos aos fatos. Eu li Morangos Mofados quando não estava no melhor dos momentos. São dezoito contos que me tocaram de todas as maneiras possíveis, e a maior parte delas não foi amigável; como eu escrevi na época, ler esse livro é como mergulhar num coração. Não há calmaria lá dentro, há só o turbilhão de sentimentos, e é isso o que mais me agrada no Caio: eu consigo sentir o coração dele ali, e é isso que me importa. Foi uma leitura dolorosa, lenta e tensa, mas quando terminei, alguma coisa aconteceu. Coloquei a cabeça pra fora. 

Os dois últimos parágrafos do último conto (que leva o mesmo nome do livro) me deram a injeção de esperança que eu precisava naquele momento. Assim, automaticamente. Eu terminei, reli esse trecho, reli mais uma vez, e agradeci. Além do simples gostar, é isso que faz um autor bom pra mim: me tocar, me ajudar, me entender de alguma forma. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

"Não se preocupe", sorria ele. "Morrer é muito mais difícil do que se acredita."

#1 - Livro favorito

Não vou falar do livro favorito, favoritão mesmo, porque seria sacanagem falar do Encontro Marcado... DE NOVO. Eu já falei tanto desse livro na vida, e exatamente nessa mesma posição, que é melhor variar um pouco. O fato é que o top 3 de livros no meu coração é, atualmente, o seguinte (em ordem alfabética, porque né):

  • A Menina que Roubava Livros
  • Cem Anos de Solidão
  • Grande Sertão: Veredas
  • O Encontro Marcado

Sim, tem quatro livros aí. Me deixa.

Mas vamos falar de coisa boa, vamos falar de Cem Anos de Solidão.

Autor: Gabriel García Márquez
Ano: 1967
País: Colômbia

"Só quando começou a desmontar a porta do quartinho é que Úrsula se atreveu a lhe perguntar por que o fazia, e ele lhe respondeu com certa amargura: “Já que ninguém quer ir embora, nós iremos sozinhos.” Úrsula não se alterou.
— Nós não iremos — disse. — Ficaremos aqui, porque aqui tivemos um filho.
— Ainda não temos um morto — ele disse. — A gente não é de um lugar enquanto não tem um morto enterrado nele.
Úrsula replicou, com uma suave firmeza:
        — Se é preciso que eu morra para que vocês fiquem aqui, eu morro."

Cem anos de solidão conta a história de uma família, em várias e várias gerações. Se passa no povoado fictício de Macondo. Um gênero? Realismo fantástico.

Histórias de família sempre têm aquela coisa toda especial. Talvez seja o drama - que invariavelmente sempre vai estar lá, porque, oras, estamos falando de famílias, certo? -, talvez seja a possibilidade de acompanhar vidas, talvez seja  curiosidade de saber onde vai dar o destino e se ele está mesmo ligado a outros tantos fatores. Em Cem anos de solidão existem muitos e muitos personagem (dá uma olhada na árvore genealógica), e boa parte deles com o mesmo nome: José Aureliano Buendía. Uma das coisas que eu achei impressionante foi que, mesmo não dando pra se aprofundar totalmente em tanta gente, cada José Buendía é único e em determinado momento não tem mais como confundi-los.

Só li dois livros do Gabriel García Márquez na vida: esse e O amor nos tempos do cólera, que por acaso terminei hoje e fica pra outro dia do meme. Mas mesmo tendo lido pouco, já sou apaixonada pela escrita. Não sou exatamente uma grande fã do espanhol, mas não posso negar que o que é escrito nessa língua tem uma musicalidade própria. E falo isso da tradução mesmo, imagina o original. Mas não é só a língua que dá essa fluidez ao texto, é o estilo do autor também. Gosto tanto desse estilo dele quanto do Saramago, e até que os dois tem lá as suas semelhanças. Fico imaginando esses autores (e Guimarães Rosa também) quando traduzidos pro inglês, ou pra qualquer outra língua não latina. Complicado, né.

Olha ele aqui na lista das 100 melhores primeiras frases de romances.
"Muitos anos depois, em frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o seu pai o levou a conhecer o gelo."