Queer as Folk é, junto d'O Encontro Marcado, uma das coisas das quais eu nunca me canso de falar sobre. Depois de finalmente terminar de assistir a versão original, que é britânica, decidi rever a americana e ir escrevendo sobre a série enquanto isso acontece. Então vamos à introdução do amor (tem coisas que eu já falei em outros lugares, mas vou repetir assim mesmo pra deixar registrado).
Eis que um belo dia, Russell T. Davies, que alguns anos mais tarde escreveria a volta de Doctor Who para a televisão, achou que seria uma boa ideia escrever uma série sobre três homens gays. O ano era 1999, e mídia especificamente voltada para o público queer não era exatamente comum - muito menos nos moldes em que ele faria isso. Nasceu assim a série Queer as Folk no Channel 4 da televisão britânica. Ela teve apenas duas temporadas, mas lançou a base da sua versão americo-canadense.
Na QAF original, a história gira ao redor de Stuart, um publicitário hedonista de vinte e nove anos, seu amigo Vince e Nathan, um garoto de quinze anos que entra na sua vida de repente e se apaixona por ele. Em 2000, o canal Showtime lançou a nova versão da série que, como todo reboot americano que se preze, era muito mais pop do que a original e, consequentemente, acabou sendo a versão mais conhecida - muita gente nem sabe que existe a britânica, e muito menos que ela foi a primeira. Queer as Folk talvez não seja uma série perfeita, também não é um mar de igualdades (personagens bi? trans? anyone?), mas abriu muitas portas em muitos sentidos. A primeira vez em que ouvi falar de QAF foi em 2005, justamente no ano em que a série americana terminou. Naquela época eu tinha treze anos e internet discada; there was no such thing as baixar séries pra assistir e o youtube ainda estava começando. Então até 2009 tudo o que eu pude fazer em relação à série era ler algumas coisas, ver algumas fotos e ter uma noção de que era aquilo que eu queria assistir quando pudesse. Um dia eu pude. Já com dezessete anos e munida de internet 3G, assisti a primeira temporada toda no youtube. A versão americana transformou Stuart em Brian, Vince em Michael (com um belo trabalho de adaptação à cultura americana ao trocar a paixão por Doctor Who pelos quadrinhos) e Nathan em Justin (dois anos mais velho, para evitar problemas). O que mais me impressionou quando comecei a ver QAF UK foi perceber como a versão americana é extremamente fiel à original. Fiel ao ponto de você poder colocar as primeiras temporadas das duas séries lado a lado e ir marcando todas as cenas em que até mesmo as falas são iguais, salvo as modificações necessárias de gírias e expressões. Achei genial. QAF US não apenas se manteve fiel à origem da história como deu à ela todo um desenvolvimento que não existia na primeira versão. Ainda mantendo o foco nos três personagens principais, outros ganharam mais destaque e, no formato clássico das séries americanas, com muito mais episódios e mais temporadas foi possível desenvolver todos esses personagens e vários subplots que não teriam sido possíveis na britânica. E, mesmo depois de cinco temporadas e de os personagens terem crescido por si, QAF US ainda foi capaz de ter uma series finale que ainda fazia referência ao final de QAF UK. É o melhor trabalho de adaptação que eu já vi e também o melhor final de série ever, muito embora eu seja suspeita pra falar.
qaf us e qaf uk, respectivamente
I'll show you the wolrd, é o que Brian diz para Michael no primeiro episódio de QAF US. Foi exatamente isso que Queer as Folk fez por mim; me mostrou que eu não estava sozinha. É engraçado porque, por mais distante que a realidade da Liberty Avenue seja da minha e por mais que a representação queer não seja completa na série (e dificilmente ela é em qualquer lugar), eu finalmente me senti fazendo parte de algo. Aquilo era meu. Tinha sido feito pra mim; no sentido de que era feito por pessoas como eu, para pessoas como eu. Os personagens de QAF são humanos, e é isso que sempre faltou na representação geral de pessoas queer na mídia. Somos caricatos, somos estereotipados, somos personagens-cota, mas nunca pessoas de verdade. QAF fala da vida de homens e mulheres queer do modo como eles realmente são: pessoas normais, como todas as outras representadas por aí. Queer as Folk, nos seus cinco anos de duração, falou de AIDS, homofobia, casamento homossexual, família, amizade, amor, sexo; mostrou pessoas boas, filhos da puta (oi Brian, estou falando com você), bons amigos, maus amigos, e todo tipo de relação entre pessoas. Sem julgamentos ou eufemismos, Queer as Folk me mostrou um mundo do qual eu fazia parte, mas que eu ainda não sabia - não porque era um ~universo gay, mas porque era o que estava ao meu redor o tempo todo, invisibilizado pela ideia que metem nas nossas cabeças de que não existimos. Foi isso que a série representou pra mim, ainda representa, e por isso eu a amo tanto.
I'm superman. I'll show you the world.
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(vou colocando essa série de posts no keep calm and watch a movie também assim que tiver disposição pra traduzir -q)
(blogger tá de frescura comigo e não me deixa colocar o texto justificado e as fotos também estão meio estranhas, mas vai assim mesmo. :/ )
Uma vez, não faz muito tempo, me perguntaram no formspring qual era a melhor série que estava passando atualmente. Eu teria respondido Lost se a pergunta tivesse sido feita há algum tempo, mas respondi Doctor Who.
É difícil falar (e explicar) de Doctor Who sem fazer um post do tamanho do universo, mas vamos tentar.
~wikipedia feelings~
Fazendo um resumão básico, Doctor Who é uma série britânica que começou em 1963 e ainda existe até hoje – e por isso consta no Guiness Book como a maior série de ficção científica do mundo. A história, como o nome já sugere, é sobre o Doctor, o último Senhor do Tempo vindo de um planeta chamado Gallifrey, que já não existe mais. Ele viaja pelo tempo e espaço numa caixa policial azul - a TARDIS – consertando as coisas pelo universo e tem um apego todo especial com a Terra e os humanos. Ah, e geralmente tem companheiros humanos.
Acontece que em 1966 o ator que interpretava o Doctor (William Hartnel) morreu e foi aí que introduziram o conceito da regeneração, que basicamente fez com que a série durasse até hoje. Seria o seguinte: toda vez que um Senhor do Tempo morre, ele pode se regenerar em um novo corpo. Genial, não? E eis que estamos atualmente no décimo primeiro Doctor.
Pra terminar o resumão da felicidade (-q?), os maiores inimigos do Doctor são os Daleks. Sim, eles parecem um saleiro com um desentupidor de pia num braço e uma batedeira no outro, mas vamos lembrar que esse ~design~ todo especial começou nos anos sessenta. E, sim, dá pra ter medo deles. Acreditem.
~wikipedia feelings~
Uma coisa que eu sempre achei legal em Doctor Who é que eles mantiveram todo aquele ar de ficção científica dos anos sessenta da série clássica (que passou na BBC entre 1963 e 1989, com um intervalo até 1996 quando teve um filme) quando a série foi retomada em 2005.
Adivinha quem foi o responsável por DW da primeira até a quarta temporada da nova versão?
Russell T. Davies.
Talvez vocês não se lembrem dele, mas eu o mencionei no post sobre Queer as Folk. Ele foi o criador da série, que era originalmente britânica mas ficou mais conhecida pela versão americana. RTD criou Torchwood também, mas aí já é outra história e outro post.
(QAF versão original, QAF versão americana-canadense, Torchwood)
Doctor Who faz parte da cultura britânica, como era de se esperar pelo tempo em que a série tem estado no ar. Começou como um programa educativo para ensinar História e Ciências para as crianças, e cá estamos, quarenta e sete anos depois e trinta e uma temporadas depois.
Eu admito que às vezes pode ser um pouco difícil começar a gostar de Doctor Who. Quando comecei a assistir (pela primeira temporada de 2005, já com o nono Doctor) fiquei abismada com os efeitos toscos e levei uns bons sete episódios pra me acostumar e perceber que essa é a homenagem à série clássica, desde os efeitos até a trilha sonora e a abertura. A boa notícia – ou nem tanto – é que a cada temporada essas coisas melhoraram, e apesar de ainda preservar um pouco desse ar sessentista, a quinta temporada (a mais recente, a sexta começa esse ano) foi a melhor em qualidade técnica, deixando a primeira quase irreconhecível nesse quesito.
E, nossa, esse post está começando (começando?) a ficar chato e wikipedioso demais.
Enfim.
Eu gosto de Doctor Who porque... não sei se dá sempre pra explicar por que gostamos de uma coisa. É uma série que à primeira vista parece um tanto infantil – e foi criada com esse propósito -, com todos os efeitos e histórias e um homem de onze rostos aparecendo milagrosamente pra salvar o mundo (os mundos) nos últimos momentos, mas tem outro lado também. Ou, melhor dizendo, o que tem por trás desse mesmo lado.
Temos as companheiras e companheiros do Doctor, o drama de ser o último de uma espécie, o horror da Guerra do Tempo, presa dentro do próprio tempo, os mundos que se acabam e não voltam mais, o próprio Gallifrey. E tem ainda o fato de que assistir Doctor Who, mesmo que apenas essas temporadas mais recentes (sim, não precisa começar do começo de todos os começos) é praticamente ver a história de um país. De vários países, na verdade. O Reino Unido também tem uma cultura televisiva muito forte, e gerações e mais gerações cresceram assistindo e sabendo o que é Doctor Who. Tanto que em vários filmes e séries, até mesmo americanos, sem nenhuma ligação entre si fazem referências a ele de vez em quando.
É isso, espero que, apesar de chato, o post tenha servido pra vocês conhecerem melhor a série – e talvez se interessarem e começarem a assistir, esperança nunca (?) é demais.
("Eu te beijei, disse 'até logo', e então você se virou e sorriu. Então eu soube porque a Debbie te chama de Sunshine." - Brian para Justin, em QAF. Saiba o que essa sigla significa no post abaixo.)
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Antes do post, uma coisa importante. Importantíssima, aliás:
ELE PASSOU!!! YARUL!!
(dêem vivas ao Rôh, pois ele passou na primeira fase da UFC, Psicologia!)
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Tá, agora o post:
Para fazer jus ao meu título – que eu mesma dei – de irresponsável mor, nos últimos tempos, em vez de estudar, fui assistir uns filmes e seriados. Permitam-me abrir um momento Espaço Cultural .status quo. neste post, pra falar deles e fazer com que vocês também tenham vontade de assistir (assim espero). Menores de dezoito anos, retirem-se (ops, vou ter que me retirar também).
Vou começar com apenas uma série e um filme, porque se fosse falar de todos o post ficaria imenso.
Queer as Folk (seriado)
QAF foi exibido na TV a cabo (com o terrível, avassalador e horroroso título de Os Assumidos aqui no Brasil – tinha que ser aqui, né) entre os anos 2000 e 2005, em cinco temporadas. É a versão americana/canadense do seriado britânico de mesmo nome que foi ao ar entre 1999 e 2000, em apenas duas temporadas. A rainha que me perdoe,mas dessa vez tenho que dar os créditos aos americanos/canadenses, que fizeram uma versão de qualidade da obra original, até superando-a. O nome do seriado é uma brincadeira com um ditado em inglês, de "ninguém é tão estranho como nós" ("nobody is so weird as folk"), para "ninguém é tão gay como nós" ("nobody is so queer as folk").
“Queer As Folknarra a história de cinco homens homossexuais que vivem em Pittsburgh, Pennsylvania: Brian, Justin, Michael, Emmett e Ted. Compondo o elenco principal, ainda temos o casal de lésbicas, Lindsay e Melanie e a mãe orgulhosa de Michael, Debbie.
Este seriado é um marco na luta dos direitos GLBT, pois investe em uma trama sem cunho pornográfico ou apelativo, mostrando homossexuais como pessoas comuns, vivendo em seu dia-a-dia. As dificuldades e conquistas desta comunidade são brilhantemente retratadas nesta produção.”
Ainda estou no comecinho da segunda temporada, e devo dizer que entre o fim da primeira e essa segunda derramei uns bons litros de lágrimas. QAF é viciante, sincero, te faz rir e chorar quase ao mesmo tempo e pelos mesmos motivos, os personagens são cativantes, e não tem nada de absurdo. Como disse o trechinho aí de cima, QAF não precisa apelar pros velhos estereótipos e para um dramalhão para conquistar o lugar que merece.
(E, quanto aos personagens, devo dizer que Brian é o filho da puta mais filho da puta do universo e, por isso mesmo, ele é incrível e apaixonante. Vão me entender quando o conhecerem.)
Cuidado: se você é homofóbico, pra início de conversa nem deveria estar neste blog. Se você não tá afim de ver, ou não pode ver, cenas de sexo, hã, diversas vezes e, hã, sem atenuações, também é melhor não assistir. Se você acha que os direitos GLBT devem ser defendidos, mas sem precisar mostrar dois caras/mulheres se beijando, então talvez seja melhor rever seus conceitos.
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Má Educação (La Mala Educacíon. 2004)
Gosta de Almodóvar? Ótimo, meio caminho andado. Nunca viu? Vai ver agora. Não gosta? Fazer o quê, né, a vida é assim. Você pode gostar agora.
Má Educação tem um enredo inicial relativamente simples: o diretor de cinema Enrique, belo dia, é procurado por um antigo colega de escola, chamado Ignacio, por quem ele era apaixonado. Esse colega se tornou ator, e entrega a Enrique um roteiro escrito por ele mesmo, chamado A Visita, baseado na infância deles no colégio católico. Beleza. Enrique lê o roteiro, que relata os abusos que o padre diretor cometia com Ignacio, e a causa da expulsão de Enrique da escola: o ciúme que o padre sentia da relação dos dois amigos. Daí, Ignacio permite que Enrique grave o filme, com uma única condição: que ele mesmo faça o papel de Ignacio.
Essa trama metalingüística, por si só, já daria um bom filme. Afinal, está nas mãos de um ótimo diretor. Mas Almodóvar vai além e, ao longo do filme, você verá o quanto esse início simples se torna intricado e instigante.
Almodóvar é conhecido pelas suas personagens femininas, seus ângulos e suas cores. A diferença básica em Má Educação é que dessa vez não há praticamente nenhuma personagem feminina. Mas, ao contrário do que se pode pensar, o filme não apela pra questão do homossexualismo nem condena ferrenhamente a Igreja. Ele não precisa disso pra ser uma boa história.
Alguns dizem que o filme peca pelas cenas de sexo “excessivamente pornôs”. Eu, sinceramente, não vi nada disso ali. Aliás, nem são tantas. Não sei se é porque estou acostumada com algo mais cru mesmo, ou se é porque não acharam mais o que criticar (e, do jeito que eu tô meio revoltada hoje, digo logo que se fossem cenas hétero, tava todo mundo achando muito bom e poético). Aliás, por falar nisso, uma das grandes características de Má Educação, pra mim, foi justamente a crueza. E não falo só de sexo. A história, como um todo, é crua, vibrante. Um soco no estômago, um quebrar de pernas. E, curiosamente, as cenas mais delicadas e bonitas, visualmente falando, são as do colégio, onde Ignacio era abusado pelo padre Manolo. Uma boa analogia sobre como a vida do garoto se tornou o que se tornou: de simples e inocente à seca e crua.
Destaco também a atuação de Gael García Bernal (sim, o Che, de Diários de Motocicleta). Ele está super versátil nesse filme, interpretando, veja bem, uns tantos personagens diferentes, e ao mesmo tempo a mesma pessoa (Ignacio) - vocês ainda vão me entender, eu acredito -, entre eles o travesti Zahara.
Dizem que o filme é uma autobiografia de Almodóvar, principalmente pelo que se vê nos segundos finais. O que ele mesmo diz, no entanto, é:
"É um filme muito íntimo, mas não é autobiográfico. Não falo de minha vida no colégio (...). Obviamente minhas memórias foram importantes na hora de escrever o roteiro, já que vivi nos locais e momentos onde a história se passa. ‘Má Educação’ não é um ajuste de contas com os padres que me educaram mal, nem com a Igreja em geral. Caso tivesse necessidade de me vingar, não teria esperado quarenta anos para fazê-lo. A Igreja não me interessa, nem como adversária. O filme não é uma comédia, ainda que haja humor, nem um musical infantil, ainda que crianças cantem. É um film noir, ou, pelo menos, gostaria de considerá-lo assim. O gênero noir admite bem a mistura com outros gêneros, sempre que a narração respire esse ar fatal, sem o qual o negro seria cinza. No noir pode não haver polícia nem armas, nem sequer violência física, mas tem de haver mentiras e fatalidade, qualidades que normalmente uma mulher encarna: a femme fatale. Ela é consciente de seu poder de sedução e é fria, razão pela qual não se altera facilmente. É alguém que perdeu os escrúpulos e não se interessa em recuperá-los. Para ela, o sexo não é fonte de prazer e sim de dor para os demais. Em Má Educação, a femme fatale é um enfant terrible, o personagem interpretado por Gael Garcia Bernal."
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No meu próximo surto cinematográfico:Les Chansons d’Amour e, se Deus quiser, Os Sonhadores (The Dreamers).
No meu, cada vez mais próximo, surto literário:Grande Sertão: Veredas e O Iluminado.
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(eu tava com saudade de escrever assim, com paixão. dessa vontade de compartilhar minhas opiniões. acho que estou de volta.)