Como eu sou uma pessoa que às vezes não tem mais o que fazer, acabo assistindo mais séries do que conseguiria pôr em dia. O resultado disso é que vejo mais de vinte séries, parando uma aqui e outra acolá pra fazer maratona nas outras, e as estatísticas do banco de séries acusam quase 400 horas de atraso. Que delícia.
Enfim, o fato é que, como eu não tenho juízo, de uns meses pra cá comecei a assistir séries novas e resolvi fazer um resuminho delas.
The Following
Eu não era muito fã de séries policiais. Só via quando tava passando alguma na televisão e tal. Mas um belo dia no twitter todo mundo estava falando sobre The Following, que tinha acabado de estrear, e resolvi baixar pra ver qual era a dela.
E não é que o negócio era bom? Muito bom.
Kevin Bacon é Ryan Hardy, um agente do FBI que tinha se afastado da profissão depois de conseguir pegar o serial killer Joe Carroll nove anos atrás e acabar com um marca-passo por causa dos ferimentos. Cheio dos problema, Ryan é chamado de volta para o FBI depois de todo esse tempo porque os assassinatos relacionados a Carroll (que era um professor de Literatura obcecado por Edgar Allan Poe) voltaram a acontecer.
[spoiler]Um negócio interessante sobre The Following (além de toda a parada da seita) é que é provavelmente a única série em que eu vi um triângulo amoroso homem x mulher x homem ser tratado decentemente. Outro dia mesmo eu estava conversando com um amigo sobre como eu sentia falta de um personagem na ficção que fosse homem, tivesse uma relação com uma mulher e se visse apaixonado por outro homem - e tudo isso sendo tratado direito, que é a parte mais difícil. E, ta-daaah, cai o Jacob no meu colo.[/spoiler]
Elementary
Sou biscat da BBC, confesso. Então sempre ignorei Elementary porque não queria concorrência com o Sherlock da BBC, mas olha, não foi uma escolha inteligente. Amargando o luto por Sherlock e seu imenso hiatus, peguei Elementary pra assistir e foi amor, magia e paixão. E o melhor é que são séries tão diferentes uma da outra que nem dá pra ficar comparando. Dá pra amar todo mundo.
Elementary é a bilionésima adaptação de Sherlock Holmes do mundo, ok. Nessa em especial, Sherlock é um ex-viciado em heroína e Watson não é um cara, mas sim a Lucy Liu, e se chama Joan Watson. Ele é britânico, mas mora em NY e o pai dele contrata a Joan (que é ex-médica) pra ser sua acompanhante de sobriedade.
O genderbent (trocar o gênero do personagem) é um dos grandes trunfos de Elementary e o outro é que aparentemente não existe a intenção de fazer de Sherlock e Watson um casal. Veja bem, em qualquer outra adaptação de Sherlock (alô House) eu super incentivo o ship, mas nesse caso em especial é maravilhoso que Sherlock/Watson sejam apenas amigos, porque existe uma carência enorme de amizades homem/mulher na ficção. Vamos torcer pra que a série continue assim.
Ah, e tem o Jonny Lee Miller, claro. Ele tem as expressões faciais mais fofas de todo o universo e, diferentemente de todos os outros Sherlocks que eu já vi, não é metido a fodão. Bem, ele é, mas não no nível Sherlock BBC. O Sherlock de Elementary é 1000x vezes mais humano e, consequentemente, mais cativante. Sherlocks fodões são divertidos, mas é muito bom ver uma diferença de vez em quando. Ah, e ele era o Sick Boy de Trainspotting. I rest my case.
Criminal Minds
Sim, mais uma série sobre uma equipe do FBI resolvendo crimes. O legal de Criminal Minds é que se trata da divisão de análise comportamental. Ou seja, essa equipe avalia o perfil psicológico dos criminosos para encontrar os suspeitos. Eu engoli a primeira temporada com leite e aveia esses dias e atualmente a oitava está em andamento. No quesito personagens lindos e amor demais temos Reid e Garcia.
Supernatural
prioridades
Haters gonna hate, mas estou me esforçando pra gostar de Supernatural. Vou encarar porque tem mocinhos bonitos (prioridades, sempre) e um grande potencial slash, mas a série ainda não me pegou.
Acho que deu pra perceber que todas essas séries ou são policiais ou têm o mesmo formato de uma série policial, ou seja, o efeito colateral de assistir tudo junto é perder a fé na humanidade, mas isso pode ser resolvido alternando com Community.
Queer as Folk é, junto d'O Encontro Marcado, uma das coisas das quais eu nunca me canso de falar sobre. Depois de finalmente terminar de assistir a versão original, que é britânica, decidi rever a americana e ir escrevendo sobre a série enquanto isso acontece. Então vamos à introdução do amor (tem coisas que eu já falei em outros lugares, mas vou repetir assim mesmo pra deixar registrado).
Eis que um belo dia, Russell T. Davies, que alguns anos mais tarde escreveria a volta de Doctor Who para a televisão, achou que seria uma boa ideia escrever uma série sobre três homens gays. O ano era 1999, e mídia especificamente voltada para o público queer não era exatamente comum - muito menos nos moldes em que ele faria isso. Nasceu assim a série Queer as Folk no Channel 4 da televisão britânica. Ela teve apenas duas temporadas, mas lançou a base da sua versão americo-canadense.
Na QAF original, a história gira ao redor de Stuart, um publicitário hedonista de vinte e nove anos, seu amigo Vince e Nathan, um garoto de quinze anos que entra na sua vida de repente e se apaixona por ele. Em 2000, o canal Showtime lançou a nova versão da série que, como todo reboot americano que se preze, era muito mais pop do que a original e, consequentemente, acabou sendo a versão mais conhecida - muita gente nem sabe que existe a britânica, e muito menos que ela foi a primeira. Queer as Folk talvez não seja uma série perfeita, também não é um mar de igualdades (personagens bi? trans? anyone?), mas abriu muitas portas em muitos sentidos. A primeira vez em que ouvi falar de QAF foi em 2005, justamente no ano em que a série americana terminou. Naquela época eu tinha treze anos e internet discada; there was no such thing as baixar séries pra assistir e o youtube ainda estava começando. Então até 2009 tudo o que eu pude fazer em relação à série era ler algumas coisas, ver algumas fotos e ter uma noção de que era aquilo que eu queria assistir quando pudesse. Um dia eu pude. Já com dezessete anos e munida de internet 3G, assisti a primeira temporada toda no youtube. A versão americana transformou Stuart em Brian, Vince em Michael (com um belo trabalho de adaptação à cultura americana ao trocar a paixão por Doctor Who pelos quadrinhos) e Nathan em Justin (dois anos mais velho, para evitar problemas). O que mais me impressionou quando comecei a ver QAF UK foi perceber como a versão americana é extremamente fiel à original. Fiel ao ponto de você poder colocar as primeiras temporadas das duas séries lado a lado e ir marcando todas as cenas em que até mesmo as falas são iguais, salvo as modificações necessárias de gírias e expressões. Achei genial. QAF US não apenas se manteve fiel à origem da história como deu à ela todo um desenvolvimento que não existia na primeira versão. Ainda mantendo o foco nos três personagens principais, outros ganharam mais destaque e, no formato clássico das séries americanas, com muito mais episódios e mais temporadas foi possível desenvolver todos esses personagens e vários subplots que não teriam sido possíveis na britânica. E, mesmo depois de cinco temporadas e de os personagens terem crescido por si, QAF US ainda foi capaz de ter uma series finale que ainda fazia referência ao final de QAF UK. É o melhor trabalho de adaptação que eu já vi e também o melhor final de série ever, muito embora eu seja suspeita pra falar.
qaf us e qaf uk, respectivamente
I'll show you the wolrd, é o que Brian diz para Michael no primeiro episódio de QAF US. Foi exatamente isso que Queer as Folk fez por mim; me mostrou que eu não estava sozinha. É engraçado porque, por mais distante que a realidade da Liberty Avenue seja da minha e por mais que a representação queer não seja completa na série (e dificilmente ela é em qualquer lugar), eu finalmente me senti fazendo parte de algo. Aquilo era meu. Tinha sido feito pra mim; no sentido de que era feito por pessoas como eu, para pessoas como eu. Os personagens de QAF são humanos, e é isso que sempre faltou na representação geral de pessoas queer na mídia. Somos caricatos, somos estereotipados, somos personagens-cota, mas nunca pessoas de verdade. QAF fala da vida de homens e mulheres queer do modo como eles realmente são: pessoas normais, como todas as outras representadas por aí. Queer as Folk, nos seus cinco anos de duração, falou de AIDS, homofobia, casamento homossexual, família, amizade, amor, sexo; mostrou pessoas boas, filhos da puta (oi Brian, estou falando com você), bons amigos, maus amigos, e todo tipo de relação entre pessoas. Sem julgamentos ou eufemismos, Queer as Folk me mostrou um mundo do qual eu fazia parte, mas que eu ainda não sabia - não porque era um ~universo gay, mas porque era o que estava ao meu redor o tempo todo, invisibilizado pela ideia que metem nas nossas cabeças de que não existimos. Foi isso que a série representou pra mim, ainda representa, e por isso eu a amo tanto.
I'm superman. I'll show you the world.
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(vou colocando essa série de posts no keep calm and watch a movie também assim que tiver disposição pra traduzir -q)
(blogger tá de frescura comigo e não me deixa colocar o texto justificado e as fotos também estão meio estranhas, mas vai assim mesmo. :/ )
Uma vez, não faz muito tempo, me perguntaram no formspring qual era a melhor série que estava passando atualmente. Eu teria respondido Lost se a pergunta tivesse sido feita há algum tempo, mas respondi Doctor Who.
É difícil falar (e explicar) de Doctor Who sem fazer um post do tamanho do universo, mas vamos tentar.
~wikipedia feelings~
Fazendo um resumão básico, Doctor Who é uma série britânica que começou em 1963 e ainda existe até hoje – e por isso consta no Guiness Book como a maior série de ficção científica do mundo. A história, como o nome já sugere, é sobre o Doctor, o último Senhor do Tempo vindo de um planeta chamado Gallifrey, que já não existe mais. Ele viaja pelo tempo e espaço numa caixa policial azul - a TARDIS – consertando as coisas pelo universo e tem um apego todo especial com a Terra e os humanos. Ah, e geralmente tem companheiros humanos.
Acontece que em 1966 o ator que interpretava o Doctor (William Hartnel) morreu e foi aí que introduziram o conceito da regeneração, que basicamente fez com que a série durasse até hoje. Seria o seguinte: toda vez que um Senhor do Tempo morre, ele pode se regenerar em um novo corpo. Genial, não? E eis que estamos atualmente no décimo primeiro Doctor.
Pra terminar o resumão da felicidade (-q?), os maiores inimigos do Doctor são os Daleks. Sim, eles parecem um saleiro com um desentupidor de pia num braço e uma batedeira no outro, mas vamos lembrar que esse ~design~ todo especial começou nos anos sessenta. E, sim, dá pra ter medo deles. Acreditem.
~wikipedia feelings~
Uma coisa que eu sempre achei legal em Doctor Who é que eles mantiveram todo aquele ar de ficção científica dos anos sessenta da série clássica (que passou na BBC entre 1963 e 1989, com um intervalo até 1996 quando teve um filme) quando a série foi retomada em 2005.
Adivinha quem foi o responsável por DW da primeira até a quarta temporada da nova versão?
Russell T. Davies.
Talvez vocês não se lembrem dele, mas eu o mencionei no post sobre Queer as Folk. Ele foi o criador da série, que era originalmente britânica mas ficou mais conhecida pela versão americana. RTD criou Torchwood também, mas aí já é outra história e outro post.
(QAF versão original, QAF versão americana-canadense, Torchwood)
Doctor Who faz parte da cultura britânica, como era de se esperar pelo tempo em que a série tem estado no ar. Começou como um programa educativo para ensinar História e Ciências para as crianças, e cá estamos, quarenta e sete anos depois e trinta e uma temporadas depois.
Eu admito que às vezes pode ser um pouco difícil começar a gostar de Doctor Who. Quando comecei a assistir (pela primeira temporada de 2005, já com o nono Doctor) fiquei abismada com os efeitos toscos e levei uns bons sete episódios pra me acostumar e perceber que essa é a homenagem à série clássica, desde os efeitos até a trilha sonora e a abertura. A boa notícia – ou nem tanto – é que a cada temporada essas coisas melhoraram, e apesar de ainda preservar um pouco desse ar sessentista, a quinta temporada (a mais recente, a sexta começa esse ano) foi a melhor em qualidade técnica, deixando a primeira quase irreconhecível nesse quesito.
E, nossa, esse post está começando (começando?) a ficar chato e wikipedioso demais.
Enfim.
Eu gosto de Doctor Who porque... não sei se dá sempre pra explicar por que gostamos de uma coisa. É uma série que à primeira vista parece um tanto infantil – e foi criada com esse propósito -, com todos os efeitos e histórias e um homem de onze rostos aparecendo milagrosamente pra salvar o mundo (os mundos) nos últimos momentos, mas tem outro lado também. Ou, melhor dizendo, o que tem por trás desse mesmo lado.
Temos as companheiras e companheiros do Doctor, o drama de ser o último de uma espécie, o horror da Guerra do Tempo, presa dentro do próprio tempo, os mundos que se acabam e não voltam mais, o próprio Gallifrey. E tem ainda o fato de que assistir Doctor Who, mesmo que apenas essas temporadas mais recentes (sim, não precisa começar do começo de todos os começos) é praticamente ver a história de um país. De vários países, na verdade. O Reino Unido também tem uma cultura televisiva muito forte, e gerações e mais gerações cresceram assistindo e sabendo o que é Doctor Who. Tanto que em vários filmes e séries, até mesmo americanos, sem nenhuma ligação entre si fazem referências a ele de vez em quando.
É isso, espero que, apesar de chato, o post tenha servido pra vocês conhecerem melhor a série – e talvez se interessarem e começarem a assistir, esperança nunca (?) é demais.
Eu ia deixar pra lá e viver a vida lindamente sem me preocupar com isso, mas não dá. O amor e etc. e Daniel, caras, não é com vocês o problema, tá? Nada pessoal. Eu me irrito é com nego que vem dizer que "aaah, foi ruim!" sem nem ter entendido o final. Então, pelo bem da sanidade alheia, leiam essa porra antes de vir falar "aaaah, eu sabia, essa teoria é velha!"
A partir daqui, MILHÕES de spoilers de Lost. Não passe daqui se não tiver assistido. Eu avisei, hein.
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Primeiramente, eu gostaria de dizer que isso aqui é um blog e que existe liberdade de expressão. Eu vou me dar ao luxo, dessa vez, de exercitar (quase) toda a minha grosseria, mas não estou me dirigindo a ninguém em particular. Sério.
Então.
Não, seu animal, eles não estavam mortos o tempo todo.
Vamos ao tutorial para entender o fim de Lost:
1. Assistiu todas as temporadas? Sim? Duvido, senão não estaria reclamando que não sabe o que os ursos polares estavam fazendo na ilha na primeira temporada e blablablá. Bah.
2. Sabe o que são os flash-sideways? Vou explicar, porque realmente às vezes isso confunde: flash-sideways são os flashs que aparecem durante toda a sexta temporada, em que todos eles se encontram numa espécie de universo paralelo.
3. Eles estavam mortos o tempo todo e a ilha era o purgatório, né? Aff, eu já sabia disso. Que paia.
NÃO, CRIATURA DOS INFERNOS. ELES NÃO ESTAVAM MORTOS!
Vou te dizer porque não estavam: é só ouvir o que a porra dos personagens estão dizendo. Escuta a porra dos diálogos e pára de pensar em quem vai ficar com quem no final - chego nisso já já - e aí quem sabe tu entende.
Sendo mais civilizada agora:
Os flash-sideways - como o Christian explicou, numa das últimas falas de The End - eram nada mais nada menos do que uma espécie de universo atemporal. Aquele universo foi criado - pelo Jack, pela consciência dele, pelo que você quiser imaginar - para que, na hora da sua morte, ele estivesse com todas as pessoas que foram importantes para a sua vida. Todas aquelas pessoas que estavam nos flash-sideways participaram da parte mais importante da vida do Jack, que foi o tempo em que ele esteve na ilha. Todas aquelas pessoas estavam mortas ali, naquele momento, naquele universo atemporal. Elas morreram antes ou depois do Jack, dentro ou fora da ilha, em momentos diferentes, mas naquele momento estavam todas juntas porque, lembre-se, aquele era um universo atemporal e o Jack precisava da presença delas ali para que se sentisse pronto pra partir. É, ver a luz, essas paradas espirituais todas. Tudo o que aconteceu na ilha foi real, tudo aconteceu de verdade. Eles não estavam mortos na ilha, a ilha não era o purgatório. O purgatório, por assim dizer, era o universo paralelo/atemporal, para o qual todos eles foram depois de mortos para resolver o problemas que deixaram pendentes na vida. Tanto que o Ben, por exemplo, não entra na igreja junto com os outros. Por quê? Porque ele ainda não resolveu tudo. Lembra do que o Hurley disse pra ele antes de entrar? "Você foi um bom Número Dois." E o Ben diz "E você foi um bom Número Um." Hurley e Ben viveram na ilha ainda por muito (ou pouco) tempo, protegendo-a.
4. Então o final de Lost foi só o Jack fechando os olhos e encontrando a paz?
Sim, pequeno pêssego. Agora que você já entendeu o que aconteceu no episódio, pode gostar ou desgostar à vontade. Só não vem ter a cara de pau de dizer que não gostou de uma coisa que tu nem entendeu.
5. Mas a Kate não ficou com o Fulano! Odiei!
Porra, cara, assistir Lost por seis anos e depois reclamar que fulana não ficou com fulano e por isso a série é ruim? Se mata, cara.
5. Então o que era aquela porra de ilha?
Exatamente o que o Jacob disse que ela era: uma espécie de rolha para conter o mal. Exatamente o que a pseudo-mãe dele disse para ele: o lugar onde está a luz que existe em todos os homens.
6. Então é isso? Todas essas paradas de luz, paz, bem e mal? Cadê a explicação científica dessa porra?
Sim, pequeno pêssego, todas essas paradas de luz, paz, bem e mal. Explicações científicas existiram durante a série, existe de fato o grande bolsão eletromagnético e, se quiser, esse pode ser o motivo científico de a ilha ser do jeito que é. Mas Lost não é e nem nunca foi uma série sci-fi. Lost sempre foi sempre pessoas e não sobre a ilha. Metáforas, metáforas!
7. Só pra ajudar, um vídeo do Maurício Saldanha com suas conclusões sobre o fim de Lost:
Lembro-me claramente de não ter me interessado muito por Lost quando vi o comercial na televisão pela primeira vez. Um avião cai e os sobreviventes têm de viver em uma ilha cheia de mistérios e... Ah, ok, que chato.
Foi isso o que eu achei na hora. Mas assisti o episódio piloto realmente por acaso – estava fazendo um trabalho na sala e, quando começou, acabei vendo – e fiquei interessada. E quando eu paro pra pensar, vejo que tudo isso aconteceu há uns cinco anos.
Durante cinco anos eu esperei pacientemente – ou nem tanto – o episódio novo de cada semana. Além disso, havia um ano de espera entre cada temporada. Durante esses todo esse tempo, eu nunca perdi um episódio. Assistia-os duas, três vezes. E assim Lost foi se tornando parte da vida de todo mundo na casa, e assistir e esperar pelos episódios se tornou tão básico e essencial quanto saber a hora em que o jornal começa na televisão.
É até difícil falar de Lost sem revelar alguma coisa sobre o enredo. Mas o que eu posso dizer é que ter assistido o primeiro episódio por acaso foi uma das melhores coisas que já me aconteceram, de verdade. Porque em Lost não há apenas sangue, ficção científica, mistérios praticamente insolúveis e tensão. Porque Lost nunca foi uma série sobre uma ilha, mas sim sobre aquelas pessoas que caíram lá e foram forçadas a viver - e morrer - juntas.
Se alguém me pedisse uma indicação de série hoje, eu indicaria Lost. E essa mesma pessoa me perguntasse o porquê de eu estar indicando Lost, eu diria que é porque ela vai se apaixonar pelos personagens, cada um, sejam eles bons ou maus, e que ela vai descobrir que às vezes é difícil dividir as pessoas em apenas dois lados. Eu até diria que seria legal se ela assistisse devagar, sem “devorar” a série em poucos meses, porque Lost é algo que precisa ser digerido. Porque com o tempo você vai percebendo que por trás de todos aqueles mistérios e fenômenos – sobrenaturais e científicos – estão apenas vidas de pessoas, e que essas pessoas poderiam ser qualquer um de nós.
Desde a primeira temporada, Lost coloca uma lente de aumento nas relações entre as pessoas e nas possibilidades causadas por elas. E se você não tivesse entrado em uma loja num determinado dia? E se não tivesse atravessado a rua? Tudo isso influencia a vida de outras pessoas, por menor que seja, e vice-versa. Estamos sendo influenciados por essas pequenas decisões o tempo todo. Todos nós, afinal, estamos vivendo em conjunto.
O fim de Lost trouxe paz, acima de qualquer outra coisa. Acima de respostas para os mistérios, acima de soluções prontas e de fácil entendimento, depois de cinco ou seis anos de algo que nos fez pensar e nos identificar, Lost nos deu a paz de terminar de um modo digno, condizente com toda a qualidade que teve durante as seis temporadas. E não estou falando apenas de qualidade técnica.
("Eu te beijei, disse 'até logo', e então você se virou e sorriu. Então eu soube porque a Debbie te chama de Sunshine." - Brian para Justin, em QAF. Saiba o que essa sigla significa no post abaixo.)
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Antes do post, uma coisa importante. Importantíssima, aliás:
ELE PASSOU!!! YARUL!!
(dêem vivas ao Rôh, pois ele passou na primeira fase da UFC, Psicologia!)
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Tá, agora o post:
Para fazer jus ao meu título – que eu mesma dei – de irresponsável mor, nos últimos tempos, em vez de estudar, fui assistir uns filmes e seriados. Permitam-me abrir um momento Espaço Cultural .status quo. neste post, pra falar deles e fazer com que vocês também tenham vontade de assistir (assim espero). Menores de dezoito anos, retirem-se (ops, vou ter que me retirar também).
Vou começar com apenas uma série e um filme, porque se fosse falar de todos o post ficaria imenso.
Queer as Folk (seriado)
QAF foi exibido na TV a cabo (com o terrível, avassalador e horroroso título de Os Assumidos aqui no Brasil – tinha que ser aqui, né) entre os anos 2000 e 2005, em cinco temporadas. É a versão americana/canadense do seriado britânico de mesmo nome que foi ao ar entre 1999 e 2000, em apenas duas temporadas. A rainha que me perdoe,mas dessa vez tenho que dar os créditos aos americanos/canadenses, que fizeram uma versão de qualidade da obra original, até superando-a. O nome do seriado é uma brincadeira com um ditado em inglês, de "ninguém é tão estranho como nós" ("nobody is so weird as folk"), para "ninguém é tão gay como nós" ("nobody is so queer as folk").
“Queer As Folknarra a história de cinco homens homossexuais que vivem em Pittsburgh, Pennsylvania: Brian, Justin, Michael, Emmett e Ted. Compondo o elenco principal, ainda temos o casal de lésbicas, Lindsay e Melanie e a mãe orgulhosa de Michael, Debbie.
Este seriado é um marco na luta dos direitos GLBT, pois investe em uma trama sem cunho pornográfico ou apelativo, mostrando homossexuais como pessoas comuns, vivendo em seu dia-a-dia. As dificuldades e conquistas desta comunidade são brilhantemente retratadas nesta produção.”
Ainda estou no comecinho da segunda temporada, e devo dizer que entre o fim da primeira e essa segunda derramei uns bons litros de lágrimas. QAF é viciante, sincero, te faz rir e chorar quase ao mesmo tempo e pelos mesmos motivos, os personagens são cativantes, e não tem nada de absurdo. Como disse o trechinho aí de cima, QAF não precisa apelar pros velhos estereótipos e para um dramalhão para conquistar o lugar que merece.
(E, quanto aos personagens, devo dizer que Brian é o filho da puta mais filho da puta do universo e, por isso mesmo, ele é incrível e apaixonante. Vão me entender quando o conhecerem.)
Cuidado: se você é homofóbico, pra início de conversa nem deveria estar neste blog. Se você não tá afim de ver, ou não pode ver, cenas de sexo, hã, diversas vezes e, hã, sem atenuações, também é melhor não assistir. Se você acha que os direitos GLBT devem ser defendidos, mas sem precisar mostrar dois caras/mulheres se beijando, então talvez seja melhor rever seus conceitos.
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Má Educação (La Mala Educacíon. 2004)
Gosta de Almodóvar? Ótimo, meio caminho andado. Nunca viu? Vai ver agora. Não gosta? Fazer o quê, né, a vida é assim. Você pode gostar agora.
Má Educação tem um enredo inicial relativamente simples: o diretor de cinema Enrique, belo dia, é procurado por um antigo colega de escola, chamado Ignacio, por quem ele era apaixonado. Esse colega se tornou ator, e entrega a Enrique um roteiro escrito por ele mesmo, chamado A Visita, baseado na infância deles no colégio católico. Beleza. Enrique lê o roteiro, que relata os abusos que o padre diretor cometia com Ignacio, e a causa da expulsão de Enrique da escola: o ciúme que o padre sentia da relação dos dois amigos. Daí, Ignacio permite que Enrique grave o filme, com uma única condição: que ele mesmo faça o papel de Ignacio.
Essa trama metalingüística, por si só, já daria um bom filme. Afinal, está nas mãos de um ótimo diretor. Mas Almodóvar vai além e, ao longo do filme, você verá o quanto esse início simples se torna intricado e instigante.
Almodóvar é conhecido pelas suas personagens femininas, seus ângulos e suas cores. A diferença básica em Má Educação é que dessa vez não há praticamente nenhuma personagem feminina. Mas, ao contrário do que se pode pensar, o filme não apela pra questão do homossexualismo nem condena ferrenhamente a Igreja. Ele não precisa disso pra ser uma boa história.
Alguns dizem que o filme peca pelas cenas de sexo “excessivamente pornôs”. Eu, sinceramente, não vi nada disso ali. Aliás, nem são tantas. Não sei se é porque estou acostumada com algo mais cru mesmo, ou se é porque não acharam mais o que criticar (e, do jeito que eu tô meio revoltada hoje, digo logo que se fossem cenas hétero, tava todo mundo achando muito bom e poético). Aliás, por falar nisso, uma das grandes características de Má Educação, pra mim, foi justamente a crueza. E não falo só de sexo. A história, como um todo, é crua, vibrante. Um soco no estômago, um quebrar de pernas. E, curiosamente, as cenas mais delicadas e bonitas, visualmente falando, são as do colégio, onde Ignacio era abusado pelo padre Manolo. Uma boa analogia sobre como a vida do garoto se tornou o que se tornou: de simples e inocente à seca e crua.
Destaco também a atuação de Gael García Bernal (sim, o Che, de Diários de Motocicleta). Ele está super versátil nesse filme, interpretando, veja bem, uns tantos personagens diferentes, e ao mesmo tempo a mesma pessoa (Ignacio) - vocês ainda vão me entender, eu acredito -, entre eles o travesti Zahara.
Dizem que o filme é uma autobiografia de Almodóvar, principalmente pelo que se vê nos segundos finais. O que ele mesmo diz, no entanto, é:
"É um filme muito íntimo, mas não é autobiográfico. Não falo de minha vida no colégio (...). Obviamente minhas memórias foram importantes na hora de escrever o roteiro, já que vivi nos locais e momentos onde a história se passa. ‘Má Educação’ não é um ajuste de contas com os padres que me educaram mal, nem com a Igreja em geral. Caso tivesse necessidade de me vingar, não teria esperado quarenta anos para fazê-lo. A Igreja não me interessa, nem como adversária. O filme não é uma comédia, ainda que haja humor, nem um musical infantil, ainda que crianças cantem. É um film noir, ou, pelo menos, gostaria de considerá-lo assim. O gênero noir admite bem a mistura com outros gêneros, sempre que a narração respire esse ar fatal, sem o qual o negro seria cinza. No noir pode não haver polícia nem armas, nem sequer violência física, mas tem de haver mentiras e fatalidade, qualidades que normalmente uma mulher encarna: a femme fatale. Ela é consciente de seu poder de sedução e é fria, razão pela qual não se altera facilmente. É alguém que perdeu os escrúpulos e não se interessa em recuperá-los. Para ela, o sexo não é fonte de prazer e sim de dor para os demais. Em Má Educação, a femme fatale é um enfant terrible, o personagem interpretado por Gael Garcia Bernal."
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No meu próximo surto cinematográfico:Les Chansons d’Amour e, se Deus quiser, Os Sonhadores (The Dreamers).
No meu, cada vez mais próximo, surto literário:Grande Sertão: Veredas e O Iluminado.
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(eu tava com saudade de escrever assim, com paixão. dessa vontade de compartilhar minhas opiniões. acho que estou de volta.)