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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

E então eu vi o infinito...

"(...) o sentimento não é bem de arrependimento, é uma espécie de nostalgia - já lhe disse isso. Nostalgia daquilo que a gente não é, dos lugares onde não esteve, das coisas que não chegou a fazer... Se você não tiver isso, se um dia se sentir satisfeito, pode ter a certeza de que você não é mais escritor." - Trecho de O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, p. 117.

Olha eu aqui de novo... Ah, as reticências do título do post não têm nada a ver com as reticências do trecho de Encontro Marcado, ok?

Tenho três coisas a fazer hoje... A primeira é explicar porque o Rôh vai passar um tempinho sem postar aqui, a segunda é postar os novos selos do .status quo. e a terceira é postar a primeira parte do segundo capítulo do Will ^^

Ah, antes de qualquer coisa... Bem embaixo da lista de blogs aqui ao lado, vocês vão encontrar agora uma espécie de “índice” pros capítulos das minhas histórias. Achei que seria mais prático do que ficar procurando nos marcadores. Então, se você quiser ler alguma história desde o começo, ou ler algum capítulo mais antigo, é só ver o índice e escolher ^^

O Rôh vai passar um tempo sem postar, por dois motivos. Por ter acabado de se mudar, e portanto estar sem telefone, internet e outras formas de comunicação com o mundo exterior, e também porque agora ele está fazendo o 3º ano. Isso significa, basicamente, estudar pro vestibular >.<” Mas não chorem, ele volta i.i O .status quo. ganhou mais alguns selos:



Este aqui, criado pelos blogs Tecnenfermaginando e Liberté, deve ser indicado para 10 mulheres.
Indico para Patrycia, Sophie, Poly, Bruna Luyza, Mah, Thays, Vanessa, Chrissie, .ana. e GueGue.









Este foi indicado pela Kekel ^^









Este pela Lêda Maria, do Diz aí ^^










E este pela .ana., do .das minhas convicções.






As regras são indicar para seis pessoas e contar seis segredos. Não contarei nenhum, é claro, senão não seriam segredos xD Mas vou contar umas particularidades minhas (ou bizarrices, chame como quiser xD) :

1 - Só tomo café com a colher dentro da xícara;
2 - Tenho memória olfativa;
3 - Sou viciada em Coca-Cola;
4 - Decoro o número dos ônibus que pego;
5 - Quando ligo pra alguém, deixo chamar cinco vezes. Sete, se for urgente xD;
6 - Sou muito possessiva.

Indico, não somente este selo, mas também os Mania de Eescrever e Proximidade para Aja Modéstia!, Onde nem o céu seja limite, Sophie, Jellyfish, A máquina de escrever e Chapéu Torto.

Bom, é isso aí... Agora vamos ao Will ^^


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Finalmente, hoje começo a postar o segundo capítulo. Espero que gostem e comentem, porque são os comentários que me animam a escrever mais ^^ Sério mesmo, faz muito tempo que não escrevo nessa velocidade xD Quando vejo que tem pessoas lendo, tudo melhora ^^


Todos Aqueles Ontens


Parte I - Prelúdio para a solidão


Capítulo 2 - Dizes que sou feliz, e não mentes


Foram tempos de paz. Da lanchonete onde trabalhava como garçom eu seguia para a casa de Orlando. Um dia, quando cheguei lá, ele estava esvaziando as estantes; os livros eram arrumados em caixas espalhadas pelo chão. Uma estava separada para mim. Eram exemplares russos, antigos, com folhas amareladas e capa dura. Ajudei-o por algum tempo, já saudoso pela livraria fechada.

- E esse espaço todo... Vai colocar o quê aqui? - perguntei.

- Não sei... Talvez uma loja. Ou simplesmente uma sala de estar.

Assim a livraria acabou. Orlando deu algumas caixas para amigos, separou outra para mim (Pra quando melhorar o inglês, ele dizia), mas a maioria ficou com ele mesmo.

- Você já vendeu algum livro na vida? – perguntei, vendo a quantidade absurda de livros que cobriam aquelas estantes.

- Talvez uns cem. E um deles foi pra você.

O Conde de Montecristo. Eu nem sequer tinha lido; tentara uma ou duas vezes, mas meu inglês ainda não se estendera à literatura.

Ao chegar em casa, naquele dia, encontrei minha mãe na cozinha. Fazia tempo que eu não a via tão cedo em casa, e ainda mais cozinhando. Por alguns instantes me dei conta de que éramos só nós dois naquela casa, e mesmo assim só nos víamos de vez em quando.

Acho que ela não percebeu que eu estava ali, e eu também não quis dizer nada. Subi para o meu quarto, de certa forma aliviado por não ter de fazer o jantar.

- x -

Al foi a única pessoa para quem eu contei que estava com Orlando, e era, portanto, a única pessoa que entendia porque eu andava tão feliz nos últimos tempos.

Eu e Orlando tínhamos uma relação meio clandestina. Isso me incomodava, mas não mais do que os olhares tortos que recebíamos quando saíamos juntos. No começo foi ruim, mas depois resolvi adotar a indiferença. As coisas então melhoraram; eu estava feliz no meu mundinho particular onde só existiam nós dois.

Um dia esqueci um casaco na casa dele. Algumas semanas depois deixei lá uma camisa, e ao fim de um ano já estava quase morando lá. Minha mãe mal notava; tinha acabado de se formar enfermeira e fazia plantões com cada vez mais freqüência. Não acho que em algum momento ela tenha percebido que eu não dormia mais em casa. Ou talvez nem se importasse.

O começo de mil novecentos e oitenta e dois marcava o aniversário de um ano do nosso namoro. Comemoramos sozinhos, na casa que eu já começara a considerar como um segundo lar. Ainda nevava e a lareira estava acesa.

- Espera aqui. – ele disse, se levantando do sofá onde estávamos confortavelmente aconchegados sob imensos cobertores.

Voltou em menos de dois minutos, trazendo consigo uma caixinha, que me entregou. Desfiz o laço que a enfeitava e abri; dentro haviam duas alianças de prata.

- Já era hora de oficializar, não? – ele falou, colocando uma delas no meu dedo. Coloquei a outra no dele. Estava feito.

Ele então me beijou e aquele momento pareceu se prolongar pelo infinito. Não havia nenhuma luz acesa na casa; só a lareira, crepitando. Orlando estava sobre mim, distribuindo beijos pelo meu pescoço e tentando tirar minha camisa. Eu me ocupava com seu cinto.

- Ainda não contou pra sua mãe? – ele perguntou, enquanto abria os botões da minha camisa, um por um.

- Porque você tem que estragar tudo? – reclamei, o empurrando para sair de cima de mim.

- Will... Vem cá. Você não acha que tem que contar? – ele continuou, me puxando para perto de si novamente.

- Eu não... Não sei como fazer isso, não sei se...

- Se você quiser, eu vou também, te ajudo. Eu sei que é difícil, mas vai ser pior se ela descobrir por outra pessoa.

Olhei pra ele, desconsolado. Eu sabia que era necessário contar à minha mãe que eu era gay, mas como? Eu nem conseguia imaginar como ela reagiria.
Orlando mexia no meu cabelo, que já estava tão comprido que chegava quase À metade das costas.

- Vou cortar. – comentei, querendo mudar de assunto.

- Mas eu gosto assim. – ele reclamou, começando a fazer uma trança.

- Dá muito trabalho cuidar dele, sabia?

- Se quiser cortar, corte. Mas eu gosto do seu cabelo do jeito que é.

Aquele jeito dele falar, tão calmo e baixo, sempre conseguia me convencer. Bom, quase sempre. No caso da minha mãe, por exemplo, ele ainda não tinha conseguido.

- Eu não sei como dizer.

- Você consegue.
- Não...

- Vou estar lá, bem ao seu lado. – ele assegurou, me olhando nos olhos. – E daqui a um ano você vem morar aqui “oficialmente”. – ele acrescentou, num tom mais baixo.

Naquele momento tive vontade de chorar. Cheguei a sentir meus olhos se encherem de lágrimas, e nem sabia ao certo o porquê disso. A lareira, a conversa, os anéis em nossos dedos; tudo parecia tão surreal. Orlando ali, na minha frente, me dando certeza de que tudo ficaria bem.

Tão surreal e, no entanto, era tudo em que eu conseguia acreditar.

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O fato desse pedaço ter terminado exatamente no trecho que eu coloquei no post passado é mera coincidência xD

Ah, ontem terminei mais um capítulo de Pra não dizer que não falei de flores. Talvez semana que vem eu coloque ele aqui ^^

Até mais, people...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Não és bom nem és mau: és triste e humano - Olavo Bilac

"De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria sempre interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro."
(Trecho de O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, p. 145)


Bom, aqui estou eu para cumprir o prometido: começar a postar, oficialmente, o Will. A citação acima, de O Encontro Marcado, é pra simbolizar o quanto esse livro significou para mim, não só na criação e continuação da história, mas também na minha vida, pois cada vez que eu o leio acabo melhorando em algum aspecto. Dessa vez ele me fez conseguir terminar o primeiro capítulo do Will, que estava "empacado" há anos (!). Como esse primeiro capítulo é um tanto "grande" para ser publicado em um post só, vou publicá-lo aos poucos. Hoje vai o Prólogo e o primeiro pedaço.


Esclarecimentos básicos sobre a história para ninguém se perder:


1 - A história, que se chama Todos Aqueles Ontens, é dividida em um Prólogo, quatro partes (subdivididas em três capítulos cada), e um Epílogo;

2 - O título veio da música All Those Yesterdays, do Pearl Jam. A história não tem nada a ver com a música, e o título é provisório (ou não...);

3 - Essa é uma história yaoi. Se você for procurar o significado da palvra yaoi por aí, vai encontrar páginas dizendo que é um "gênero de publicação que tem o foco em relações homossexuais entre dois homens e tem geralmente o público feminino como alvo"*, mas nesse caso o termo yaoi está sendo usado como uma uma "segunda definição, comumente usada por escritores de fanfics, que aplica yaoi para histórias com romance sem presença de conteúdo sexual explícito(...)"*. Então, agora que está tudo devidamente explicadinho, se você não quer ler, não leia, mas depois não venha dizer que não avisei ¬¬ (maiores esclarecimentos sobre o gênero yaoi em um post futuro o/);

* citações retiradas da Wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Yaoi)

4 - Plágio é crime. Seja original e não copie.

Ok, então... Vamos lá. o/

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Todos Aqueles Ontens

Prólogo


Londres, Inglaterra. 1973.


Uma campainha tocou em um típico bairro inglês de classe média alta. Tocou mais uma vez, e ainda outra. Quem insistia era um rapaz moreno, visivelmente desacostumado com o frio da véspera de Natal. Alguns vizinhos interromperam seus cânticos para dar uma espiada; só podia ser estrangeiro. Trazia duas malas consigo.


A porta foi aberta. Uma senhora rechonchudamente simpática deu as boas vindas ao estranho e o ajudou com a bagagem. Tudo o que os vizinhos curiosos puderam ouvir foi algo como “James não disse que você viria”. Depois disso, o suave baque da porta sendo fechada, e os cânticos voltaram.

- x -

- Só peço pra ficar até o ano novo, depois me viro.

O rapaz ia falando enquanto aceitava os pães que a Sra. Bradford lhe passava.

- Pode ficar o quanto for preciso. Só gostaria de saber o motivo dessa... Bem, dessa sua saída repentina de casa.

O Sr. Bradford, cachimbo entre os dentes, claramente evitava a palavra “fuga”. Seu visitante olhou para o amigo, bem à sua frente na mesa, como se pedisse ajuda.

- Deixe-o descansar, pai. É Natal. – James falou.

E assim foi feito. O Sr. Bradford ainda imaginava o que um rapaz sempre tão responsável como aquele poderia ter feito para querer (ou precisar) fugir de casa. Sua mulher, no entanto, só se preocupava em aquecê-lo e alimentá-lo bem.

- Nos trópicos não neva. – ela dizia, enquanto pegava mais um suéter, para logo depois perguntar: - O México fica nos trópicos?

- x -

Na madrugada de Natal, enquanto todos dormiam, os rapazes conversavam no quarto de hóspedes.

- Você vai voltar? - James perguntou.

- Não.




Inglaterra, Londres, distrito de Brixton, 1977.


- Já chegamos? – o garoto perguntou à mãe, em russo.

Ele tinha acabado de acordar; tinha pegado no sono em Gales. Quando a mãe disse “Sim”, ajeitou-se melhor no táxi para olhar a paisagem.
Estavam passando por um mundo que, em seus doze anos de vida, ele nunca tinha sequer imaginado. Nunca tinha visto prédios, nem tantos carros juntos. E o barulho era ensurdecedor! Teve vontade de chorar, chegou a sentir o ardor na garganta, lhe sufocando... Mas não podia; afinal, não era mais nenhuma criança.

Mas estava assustado.

Depois de mais uma hora o carro passou por um lugar completamente diferente do anterior. As casas não eram os edifícios de concreto, com janelas de vidro. Eram prédios baixos, encardidos, que pareciam se amontoar uns sobre os outros. Havia mais barulho; uma completa cacofonia de línguas e músicas estranhas.

E as pessoas... O garoto nunca tinha visto pessoas daquelas cores, que variavam do dourado ao marrom-escuro. Ele as achou tão bonitas... Eram cores quentes. Nada pareciam com a neve que ele deixara pra trás. Até seus sorrisos o aqueciam.

Por fim, chegaram a outro lugar, e nesse não havia tanto barulho. Nem prédios. Apenas casas; todas iguais, com varanda, garagem e jardim. Desembarcaram na última casa da última rua. No jardim só havia grama. Nenhuma flor ou árvore.

Enquanto a mãe pagava o táxi, ele olhou para os lados; de um estava Londres, distante e sombria. O fim do mundo. Do outro, estava o sol, ainda alto, e um campo verde que se estendia por outros vilarejos. O começo do horizonte.

- x -

- Nós vamos voltar? – ele perguntou à mãe quando ela pôs a chave na fechadura da nova casa.

- Não.

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Parte I - Prelúdio para a solidão

Capítulo I - Palavras de um futuro incerto

Novembro de 1980; outono. Por algum motivo estranho, os grandes acontecimentos da minha vida sempre vinham no outono. E o primeiro de todos eles foi o meu nascimento, em 22 de outubro de 1965. Mas isso não importa agora.

O que importa é que, nesse início de novembro, as coisas começaram a mudar. Percebi isso quando, pela primeira vez desde que cheguei a Londres, mudei o caminho pra casa, entrando em uma rua diferente da que costumava entrar. Fiz isso porque tive a idéia repentina e irresistível de comprar sorvete. Entrei numa rua onde desconfiava que houvesse uma padaria e saí de lá com uma lata de 400 ml de sorvete de flocos na mão, pronto para continuar o caminho normal. Mas tive outro impulso e resolvi comer numa praça ali perto, tranqüilamente sentado. E foi o que fiz.

Uma das coisas mais bonitas do outono são as praças; elas ficam aconchegantes e douradas, quando as árvores soltam as folhas secas... Fiquei sentado lá, admirando o vento do fim de tarde derrubar as folhas quando outra coisa me chamou a atenção: um homem, com vários livros nos braços, lutando para não deixar nenhum cair. Por fim, ele os despejou no banco onde eu estava e se sentou também, cansado e praguejando palavrões em espanhol. Baixei a cabeça pro meu sorvete quase terminado, sem querer ser notado, mas não deu muito certo.

- Boa tarde. - ele disse, esticando o pescoço para me ver do outro lado dos livros. Acenei, pensando “Já é quase noite, mas tudo bem”, e voltei ao sorvete, mas já tinha acabado. Suspirei e coloquei a lata ao meu lado. Já estava pegando a mochila e levantando para ir embora quando o tal falou de novo, parecendo ter superado uma grande crise interior: - Será que você poderia me ajudar a levar isso? Eu moro a umas duas ruas daqui; não é muito longe.

E foi aí que o olhei pela primeira vez com atenção. Era moreno, tinha cabelos pretos e olhos claros que pareciam suplicar para que eu o ajudasse. Hesitei por alguns segundos, mas depois murmurei um “Tá”, e então vi seu sorriso pela primeira vez; um sorriso de alívio, mas autêntico. Ele levantou e dividiu a pilha em duas partes, entregando uma pra mim, e seguimos rumo à sua casa.

- Eu sei que não devia estar pedindo isso, que é um abuso e tudo o mais, - ele dizia, enquanto andávamos – Mas tava meio difícil ir sozinho.

- Tudo bem. - respondi. Percebi que ele me olhou de relance, e continuei andando.

Ao fim de poucos minutos chegamos em frente a uma livraria chamada Stefani & Stefani. O homem se contorceu um pouco para pegar as chaves e abriu a porta. Entramos.

- Pode colocar aqui. - disse, me indicando uma mesa.

Uma vez livre do fardo dos livros, dei uma olhada no lugar. Era pequeno, escuro e cheirava a mofo. Terrível.

- Orlando. - ele se apresentou, me estendendo a mão.

- Will. - respondi, apertando a mão oferecida.

- Moro lá em cima. - ele continuou, apontando uma escada atrás da mesa. - Se quiser, sabe...

- Claro. - respondi, sem saber. Segui-o através da escada estreita.

A primeira visão que tive da casa foi um choque. Ao contrário da livraria, era bastante clara e limpa. Orlando se adiantou até a cozinha e começou a preparar algo que me parecia ser café. Quando ele trouxe as xícaras eu já estava no sofá, e ele se sentou também.

- A livraria é sua, então? - perguntei.

- É.

- Pois é horrível. Cheira a livros velhos. - comentei, displicente. Depois me recriminei por esse péssimo hábito de ser sincero, mas ele não pareceu dar importância. Na verdade, apenas riu.

- Precisa de uns cuidados mesmo... - disse, depois de algum tempo, e continuou bebendo o café. Eu já tinha desistido do meu na metade; era muito ruim.

Percebi então que os olhos dele eram cinzentos. Como uma tempestade. A pele era morena de sol e quase brilhava, ou talvez eu estivesse apenas delirando. Nunca tinha visto uma cor tão bonita assim... Levantei, decidido a ir embora, mas algo me dizia que se ele dissesse “Não vá” eu não mexeria mais um músculo sequer.

- Já vai? - ele perguntou quando lhe devolvi a xícara. Que pergunta idiota! Era óbvio que eu estava indo embora, mas me limitei a responder um simples “Já”. Orlando se levantou também e, passando à minha frente, segurou a porta para mim. - Quando der...

- Certo.

Ele não precisava terminar as frases; eu sempre sabia o que queria dizer, desde aquele momento, e sempre saberia. Mas isso não fazia dele uma pessoa previsível; na verdade, dava uma sensação boa de que nos conhecíamos o suficiente para não falar. Naquele momento era apenas uma sensação, claro, porque eu só o conhecia há uma hora, mas mesmo assim foi bom. Foi o que me deu confiança para lhe abrir um sorriso quando já estava saindo e dizendo “Tchau”.
Desci a escada sozinho e, ao sair para a rua, vi que ele me olhava de uma janela. Acenei mais uma vez e continuei meu caminho. Enquanto andava sentia seu olhar me seguindo até a esquina como uma presença quente e protetora.

- x -

- O que você tem? - Al me perguntou de repente, levantando os olhos do caderno.

Estávamos no quarto dele, estudando. Também acontecia com Al isso de não precisar de palavras; eu sabia que ele se referia ao estado sonhador em que eu me encontrava desde a noite anterior.

- Nada demais... Aconteceram uma coisas estranhas ontem.

- Que tipo de coisas estranhas? - ele insistiu, voltando a fazer o dever.

- Ajudei um cara a carregar uns livros.

- E o que isso tem de estranho?

- Ah, sei lá... É que fiquei pensando nele depois, só isso. - respondi, tentando me esquivar de mais perguntas. Não funcionou.

- Como ele era?

- Moreno, alto, bonito e gentil. - despejei.

- Resumindo, é o sonho das colegiais de Londres... - ele zombou. Joguei um travesseiro nele, o que serviu para adiar a próxima pergunta. - Qual o nome dele?

- Orlando, porquê? - perguntei, distraído, mas percebi que ele parecia reconhecer alguma coisa quando falei o nome.

- E ele tem uma livraria chamada Stefani & Stefani, pois é... - ele continuou, rindo. Eu ainda estava perplexo. - Acho que você conheceu meu primo.

- Como é que é? Ele não pode ser seu primo, ele tem muito mais melanina que você e... Ai, caramba... - dei um tapa na minha própria testa. Tinha acabado de me ocorrer mais uma coisa que me escapara na noite anterior. - Como eu não me toquei que vocês têm o mesmo sobrenome? - perguntei, desolado.

- Acontece... Meu pai tem um irmão que vive no México e se casou por lá.

- Isso explica a melanina.

- É, explica.

- Você seria mais bonito se fosse moreno como ele. - comentei.

Rimos por algum tempo e voltamos aos livros. Só então percebi que o jeito de Orlando me lembrava Al de alguma forma. Que burrice não lembrar o sobrenome dele!

- Vai voltar lá? - ele perguntou depois de vários minutos de silêncio.

- Acho que sim... Não sei, talvez... Mas porque eu voltaria?

- Pra vê-lo de novo, oras.

- E porque eu quereria vê-lo de novo?

- Isso é alguma espécie de auto-análise?

- Responde, vai... É importante pro meu autoconhecimento.

- Tá... Você quer vê-lo de novo para entender porque pensa tanto nele.

- Boa resposta... Acho que é isso mesmo...

- Então vai lá hoje.

- Hoje não; semana que vem.

- Como queira.

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Notas do Prólogo:
1. A primeira parte trata da chegada de Orlando a Londres. Apesar do protagonista ser Will, mostro sua chegada na segunda parte do prólogo por questões de tempo. Afinal, Orlando chegou alguns anos antes;

2. Tomei a "liberdade poética" de fazer com que haja uma espécie de "conjunto habitacional" tranqüilo e chato nas vizinhanças de Brixton. Não conheço bem (ainda!) a geografia de Londres, então perdoem os erros o/*


A quem chegou até aqui, obrigada ^^
Em breve mais do primeiro capítulo...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez.

Olá, pessoas...
Este é o post de despedida de 2008, pois provavelmente não terei internet durante o recesso xD Quanto a capítulos novos do Pra não dizer que não falei de flores... Só ano que vem, quando também começarei a publicar o Will na seqüência (maiores esclarecimentos sobre o Will, favor clicar em “will” nos marcadores xD)
E é isso... Aos que fizeram vestibular esse mês, good luck o/*
À pessoa que comentou no post Drink from me and live forever, por favor identifique-se pra que a gente possa conversar mais sobre vampiros qualquer dia desses o/
Até mais, e Feliz Natal, Ano-Novo e todos os derivados...

(o texto abaixo foi escrito no dia 13/12)

Passei esta semana lendo O Encontro Marcado. Ou melhor, relendo, pela milionésima vez xD Tenho uns cinco livros para ler, trabalhos imensos a fazer, o recesso só começa semana que vem, não tenho tempo suficiente na internet para fazer tudo que preciso... Enfim, passei esses últimos dias quase que sem tempo nenhum para ler este livro, mas... O Encontro Marcado é um caso especial.
Ler este livro é como afirmar para mim mesma que tenho que escrever. Toda vez que leio, termino com uma vontade imensa de escrever, qualquer coisa que seja. Como disse pra Rafael-san uns dias atrás, descobri que pra escrever não preciso só da inspiração. Tem que vir antes a vontade de escrever. Não a obrigação de fazer capítulo tal para o dia tal, ou ainda ficar me cobrando para terminar o Will, por exemplo. Quando é assim não sai bom. Os melhores escritos vêm quando há primeiro a vontade pura e simples de escrever.
Acho que já disse aqui há alguns posts atrás, que comecei o Pra não dizer que não falei de flores como um projeto para me livrar da mania de revisar exaustivamente o que escrevo. Funcionou, pois eu não reviso nenhum capítulo. Escrevo e publico, escrevo e publico; é automático. É um exercício xD Não vou dizer que não me apeguei à história, porque me apeguei sim, mas não me dedico à ela. Assim como a outras cinco ou seis fics que abandonei no FF.net e só atualizo de meses em meses xD
Desde que comecei a reler o Encontro Marcado tenho escrito o Will com uma freqüência anormal. E é aí que entra o assunto principal deste post: o meu sofrimento em escrever.
Gosto de escrever, não há dúvida. É o que mais amo nesta vida. Mas escrever, para mim, é um processo penoso, difícil. Levei duas semanas (senão quase três!) para escrever o sexto capítulo do Pra não dizer que não falei de flores (nossa, que título enorme xD), e olha que esse é dos que eu não reviso! Ontem passei quatro horas em frente a uma folha de papel, e consegui escrever apenas uns dois parágrafos do Will.
Eu não acho que escrevo mal. Muito pelo contrário, não tenho vergonha nenhuma deixar a modéstia de lado e dizer que sei que o Will é bom. Mas também conheço pessoas que escrevem muito bem, e têm facilidade pra escrever.
Ou seja: há quem goste de escrever, e quando tem uma idéia desenvolve, escreve e termina com a maior facilidade do mundo.
E há quem goste de escrever e não consegue escrever sempre. É o meu caso. Já passei meses sem escrever nada que prestasse. Porquê? Porque não conseguia, não saía nada.
Agora, por exemplo, estou com vontade de escrever e vou aproveitar isso. Escrevi três folhas do Will em três dias, e isso, no meu ritmo lento e sofredor, já é um avanço considerável xD
Outra peculiaridade: não gosto de escrever no computador. É fácil demais. É só digitar e pronto, tá feito. Não tem graça, não é meu. Se não escrevi, com lápis (ou melhor, lapiseira xD) e papel, não fui eu que fiz. Tenho dessas doidices. Tem gente que diz que só gosto de coisa antiga (Parente-san, por exemplo, vive dizendo isso de mim xD), mas fazer o quê? Sou assim mesmo. Gosto de máquinas de escrever xD
Na verdade, eu também gosto de computadores, e muito. Afinal, dentro de pouco mais de dois anos é deles que eu vou viver, não é? Tinha que gostar xD Mas o computador é uma máquina, e escrever nele é algo mecânico, sem vida. Minhas histórias não são relatórios, são? Não são. Então só digito quando é pra publicar em algum lugar.
Aí vem a pergunta: máquina de escrever também não é uma máquina?
É sim, mas então temos outra loucura da mente desequilibrada de Moony-chan: na máquina de escrever há o sofrimento. É doloroso, engancha-se os dedos, tem que ficar trocando o papel, a fita de tinta, as teclas são duras, desconfortáveis, as letras quase sempre vêm irregulares... É uma maravilha xD Acho que a questão é essa: eu preciso de sofrimento físico para sentir que o que estou escrevendo é meu mesmo.
Escrevo geralmente de madrugada, duas ou três horas da manhã, com fome, até a exaustão. Não sei por que reclamo da insônia de vez em quando; sem ela o que seria das minhas idéias, dos meus escritos?
Ando meio doida ultimamente, com vontade de discutir essa minhas idéias malucas sobre o ato de escrever... Ou de simplesmente escrever sobre elas. Sinto que vou passar o recesso escrevendo e isso é bom. Queria que fosse assim sempre... Meus “bloqueios criativos” chegam de repente, sem aviso... Tenho medo deles. Não posso parar. Dane-se a Engenharia, eu quero mesmo é escrever!
Ok, calma xD
Uma coisa que tem me inspirado demais (agora é inspiração, não vontade. Vontade é por causa do Encontro Marcado) é a série Capitu. Adoro o livro, adoro coisas doidonas, e adoro o fato do texto ser o próprio livro, sem adaptações (claro que há cortes, mas no mais... tudo é Machado de Assis).
Fico pensando no que vou fazer quando terminar de ler o Encontro Marcado e quando terminar a série (termina hoje, dia 13/12, daqui a pouco)... Espero que o efeito que eles me causaram dure muito tempo, porque acho que vou demorar para encontrar outra dupla dinâmica dessas pra me impulsionar assim xD Talvez simplesmente não exista, seja um momento único... Sei lá. Ando doida esses dias.
Eu disse pra Parente-san que andava deprimida, mas não é bem isso... Deprimida eu tava em outubro xD Agora eu estou num estado meio estranho, meio de reflexão. Acho que finalmente consegui captar um pouco da essência da amargura de que tava precisando para escrever. Afinal, a dor, a tristeza, a nostalgia, a melancolia e a insônia são as eternas musas dos escritores... Parece triste, mas é verdade.
Não estou deprimida, nem triste sem motivo. Não ando chorando pelos cantos ou remoendo problemas. Só estou vendo as coisas de um jeito um pouco mais... Sei lá. Ultimamente eu tava só deixando a vida passar, só esperando. Agora estou tentando dar um sentido às coisas.
Talvez (ou melhor, com certeza) daqui a vinte anos eu pense: Nossa, quanta besteira. Pode até ser, mas é bom xD É construtivo. As coisas que achamos importantes hoje são importantes hoje, e isso basta. Daqui a vinte anos é claro que não vai ser a mesma coisa, pra ninguém. As coisas importantes daqui a vinte anos serão importantes daqui a vinte anos assim como as de hoje são agora. Deu pra entender? xD Tudo depende do momento.
A vida é feita de momentos. Momentos felizes, momentos tristes, momentos neutros.
Considero este um momento feliz.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Este caminho que eu mesmo escolhi é tão fácil seguir, por não ter onde ir - Maluco Belza / Raul Seixas

Olá...
Eu ia postar o capítulo cinco do Pra não dizer que não falei de flores hoje, mas a verdade é que não consegui terminá-lo a tempo... Mas talvez eu poste na sexta ou na segunta-feira que vem (mais provável na segunda).
Acabo de sair de uma terrível prova de Análise de Circuitos... É deprimente, porque eu achei que tava arrasando na matéria e vem a porra do Teorema de um doido chamado Thévenin pra acabar com tudo! Resultado: tudo indica que tirei um 2. Mas tudo bem, eu supero. Afinal, dois sempre é melhor que zero.
Parente-san (que mudou seu nick para Roh, mas eu nunca vou conseguir deixar de chamá-lo de Parente-san) está mais uma vez sem internet. Talvez ele poste essa semana, talvez não... Mas acho que ele posta sim...
Ah, estou lendo um livro muito bom: A Grande Arte, de Rubem Fonseca.
Conheço muita gente que despreza a literatura nacional, mas a eles eu digo: Não façam isso. Muitos autores brasileiros são simplesmente maravilhosos. Fernando Sabino, por exemplo, é o the best. O melhor livro que li em toda a minha vida foi Encontro Marcado, do Fernando Sabino. A Faca de Dois Gumes também é incrível.
Detalhe: às vezes quando a gente diz "o melhor livro que já li" as pessoas acham que é por causa do estilo, da história, etc, etc... E é mesmo, mas, nesse caso em especial, o Encontro Marcado não é o melhor pra mim só por causa disso. Ele é o melhor porque significou muito para mim quando o li, e não me canso de relê-lo quantas vezes forem necessárias para sentir de novo tudo o que ele tem de especial.
E Brumas de Avalon divide o pódio, evidentemente xD~ Mais uma vez, o que eu mais achei incrível no livro foram alguns assuntos que significavam muito para mim, mesmo que não afetassem muito a história. E foi epecial tamém por tratar o tema do Rei Arthur de uma forma tão maravilhosa, focando principalmente na substituição das reliões "pagãs" pelo cristianismo. Quanta coisa se perdeu nessa loucura de achar que todos os não-cristãos estavam errados!! E o pior é que ainda tem gente que pensa assim.
Bom, por hoje é só...
Até mais...