Mostrando postagens com marcador autores. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador autores. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Just because you're used to something doesn't mean you like it. You're used to me.


#28 - Last book you read


Precisamos falar sobre o Kevin
Autora: Lionel Shriver
Ano: 2003
País: Estados Unidos

"(...) durante boa parte da infância de Kevin, aquelas feições estreitas, angulosas, me torturaram com meu próprio reflexo. Mas, neste último ano, seu rosto começou a se encher e à medida que vai se alargando, reconheço a sua ossatura mais larga, Franklin. Embora seja verdade que, no passado, busquei faminta na fisionomia de Kevin alguma semelhança com o pai, agora vivo brigando com essa impressão maluca que ele faz de propósito, para eu sofrer. Não quero ver a semelhança. Não quero detectar os mesmos maneirismos, aquela palmada característica, de cima para baixo, quando você descartava algo porque era insignificante, como, por exemplo, a ínfima questão de nossos vizinhos, um atrás do outro, proibirem as crianças de brincar com o nosso filho. Ver seu queixo forte retesado num ângulo belicoso, seu largo sorriso ingênuo retorcido num esgar malicioso, é como considerar meu marido possuído."

---

Em abril de 1999, dois estudantes mataram treze pessoas, feriram outras vinte e um e depois se mataram no que ficou conhecido como o Massacre de Columbine. Esse episódio é, até hoje, o mais conhecido caso de atiradores na escola - que já não são poucos. Filmes, livros e documentários sobre isso não têm em comum apenas se tratar de um mesmo tema, mas todos se debruçam no que parece ser a questão crucial em torno da carnificina de qualquer natureza: por quê? O que motiva pessoas a cometerem assassinatos em massa? Ou, especialmente, o que motiva adolescentes - ou até mesmo crianças - a fazê-lo?

Quatro anos depois de Columbine, o livro Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver, foi lançado. Nele, a autora conseguiu construir uma trama extremamente original sobre o massacre escolar fictício cometido por Kevin Kachadourian. O pulo do gato foi não apenas a narradora pouco usual em histórias desse tipo – a mãe do assassino é quem escreve as cartas que formam o livro -, mas a sua própria estrutura que consegue se desconstruir e amarrar suas próprias pontas de uma maneira nem sempre vista por aí.


Precisamos falar sobre o Kevin é vendido como a história de um psicopata. Achei interessante o fato de não ter encontrado a palavra em nenhum momento no livro, mas desde que o leitor tenha algum conhecimento do seu significado, não é difícil fazer a relação. A psicopatia é, numa explicação superficial, a incapacidade de sentir empatia para com as pessoas. Nos últimos anos, o termo e os sinais que ajudam a identificar o psicopata têm-se popularizado.

Eva Khatchadourian escreve para o ex-marido, algum tempo depois do massacre, para tentar entender o que aconteceu. Não é uma simples exposição de fatos; são sequências e sequências de pensamentos que tornam até difícil acreditar que estamos lendo sobre pessoas que não existem – uma qualidade importantíssima na ficção. Eva, descendente de armênios, cosmopolita, dona da sua própria agência de viagens e ironicamente portadora do nome da mãe de todos os homens, casa-se com o homem que menos esperaria amar: um americano. Refletindo sobre o que afinal fez com que Kevin viesse ao mundo, a resposta é perturbadora: ela não queria ter um filho. Aliás, o livro todo é perturbador por tocar no que talvez seja uma das relações emocionais mais delicadas e sacralizadas de todas: a relação mãe e filho. Está exposto ali aquilo que se tem medo de dizer e mais ainda de entender: nem sempre amamos nossos filhos. E, pior ainda, é possível que os odiemos.

Como seria de se esperar, é comum retirar daí a conclusão de que Kevin se tornou um assassino por já ter nascido “rejeitado” pela própria mãe – o que considero uma conclusão no mínimo superficial. A reflexão de Eva sobre todos os anos em que conviveu com o filho podem ser tudo, menos simples, tornando impossível retirar dali apenas argumentos de causa e efeito diretos. Isso também é perturbador: a possibilidade de não existirem respostas, sendo que elas são exatamente aquilo que tanto queremos.


Kevin Khatchadourian passa longe do que se considera uma criança “normal”; literalmente desde o seu nascimento, Eva desconfia que existe algo de errado. Passando de um bebê que não para de chorar quando está sozinho com a mãe até uma criança que contrasta seu completo desinteresse em relação a qualquer estímulo com uma dissimulação assustadora para alguém tão pequeno, ela tenta entender o que move o filho. Seria o tédio em relação a qualquer coisa que o mundo pudesse lhe oferecer? Seria uma raiva injustificada contra tudo? Seria uma desordem afetiva, os esforços que não foram o suficiente, uma necessidade constante de representar um papel, seria puramente apatia?

Como se não bastassem todas essas questões que são o suficiente para manter vários profissionais ocupados, a narrativa tem uma condução que não posso classificar de outro modo que não excelente. Estou fazendo um esforço para encontrar algum defeito, mas confesso que não estou obtendo sucesso nenhum na minha empreitada. Talvez haja uma pequena perda do ritmo na narração de fatos que Eva não presenciou diretamente, mas nada que chegue a prejudicar o livro – que teve nada menos que o efeito de me derrubar completamente assim que terminei de ler as linhas finais. Não existe uma maneira de ser forte lendo algo tão perturbador, que toca tão profundamente naquilo que menos somos incentivados a pensar. Não é uma descrição qualquer de uma história comum; além de passar a quilômetros de distância do clichê, estamos lendo pensamentos vindos de uma pessoa, realmente tentando procurar algum sentido naquilo em que parece não haver nenhum – e, pior, tendo que se deparar com a possibilidade de que, bem, talvez simplesmente não haja.

Acho provável que não exista uma expressão mais eficiente para descrever Precisamos falar sobre o Kevin do que um soco no estômago

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Day 29: Book you’re currently reading

Day 29: Book you’re currently reading

Daí que um dia eu ganhei os dois volumes d'O Conde de Monte Cristo (eu nunca sei se Monte Cristo é junto ou separado) e pensei: poxa, legal, mas que preguicinha de ler, deve ser chato que só a porra. Enrolei um pouquinho, finalmente decidi ler e... bem, digamos que foi uma das maiores surpresas literárias que eu tive esse ano.

Autor: Alexandre Dumas, pai
Ano: 1844
País: França

Era uma vez um rapaz de dezenove anos muito honesto e meio inocente chamado Edmond Dantès. Tudo ia bem na vida de Edmond: ele se tornaria capitão do navio onde era imediato, ia ter mais dinheiro pra cuidar do pai e se casaria com o amor da sua vida, Mercedes. Mas essa felicidade toda incomodava Danglars, outro marujo do navio que tinha ambição de se tornar capitão, e Fernand, amigo de infância de Mercedes que estava apaixonado por ela e não fazia nenhuma questão de que o casamento acontecesse. Uma armação envolvendo uma suposta carta para Napoleão acaba fazendo com que Edmond seja preso como traidor bonapartista. Na prisão ele conhece o abade Faria, que o ensina tudo o que sabe, e Edmond consegue fugir treze anos depois de ser preso, encontrar o tesouro do abade (que morreu antes de conseguir fugir) e volta irreconhecível como o Conde de Monte Cristo, distribuindo justiça para os amigos e vingança para os inimigos.

Eu vi essa história pela primeira vez no filme de 2002 (aquele com o Jim Caviezel) e lembro de ter gostado. Quando vi os dois volumes enormes do livro, fiquei pensando em como fizeram pra resumir tudo aquilo. Descubro quando rever o filme e prestar mais atenção.

A minha surpresa foi ter gostado tanto do livro. Quer dizer, estar gostando, porque ainda não terminei. É realmente envolvente, e o cara sabe fazer um suspense legal no fim dos capítulos, que são curtinhos - se bem me lembro da wikipedia, o livro foi originalmente lançado em fascículos, provavelmente por isso o formato e os ganchos emocionantes nos finais dos capítulos. 

Vendido como o "gênero de capa e espada", O Conde de Monte Cristo é mesmo uma aventura, mas não deixa de ter lá as suas vibes psicológicas. Afinal, estamos falando de um rapaz preso injustamente por treze anos (Sirius Black, anyone?) que tinha como único incentivo de viver a vontade de entender o que lhe acontecera e de se vingar de quem tinha lhe roubado a vida. Tô aqui arrependida de ter pensado que era chato.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Day 12: Book that is most like your life (e um aviso)

Antes de tudo, o aviso:

A partir de hoje, vocês também me encontram no Minoria é a mãe (sim, lá uso meu nome). Recomendo loucamente o blog, e recomendaria mesmo que não participasse dele. Trust me, vale a visita :)

Day 12: Book that is most like your life

Autor: Caio Fernando Abreu
Ano: 1982
País: Brasil


frescos morangos vivos vermelhos


Sim, eu sei o que se fala do Caio pela internet afora (e da Clarice também. Caio, aliás, era grande admirador dela). But I don't give a single fuck, e não digo isso pra pagar de blasé nem nada do tipo: é que eu realmente não me importo e nem tenho interesse o suficiente pra tentar me importar. Um dos fatos fundamentais da vida é: sempre vai haver alguém que não gosta do que você gosta e vice-versa, deal with it. Eu muito raramente vou estar interessada no fato de um autor ser bem aceito pela crítica ou não, ter influência x ou y, ter um estilo considerado z ou w. Eu vejo se gosto ou não, e é assim que funciona. Li Caio, gostei, então é o suficiente.

Isso posto, vamos aos fatos. Eu li Morangos Mofados quando não estava no melhor dos momentos. São dezoito contos que me tocaram de todas as maneiras possíveis, e a maior parte delas não foi amigável; como eu escrevi na época, ler esse livro é como mergulhar num coração. Não há calmaria lá dentro, há só o turbilhão de sentimentos, e é isso o que mais me agrada no Caio: eu consigo sentir o coração dele ali, e é isso que me importa. Foi uma leitura dolorosa, lenta e tensa, mas quando terminei, alguma coisa aconteceu. Coloquei a cabeça pra fora. 

Os dois últimos parágrafos do último conto (que leva o mesmo nome do livro) me deram a injeção de esperança que eu precisava naquele momento. Assim, automaticamente. Eu terminei, reli esse trecho, reli mais uma vez, e agradeci. Além do simples gostar, é isso que faz um autor bom pra mim: me tocar, me ajudar, me entender de alguma forma. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

"Não se preocupe", sorria ele. "Morrer é muito mais difícil do que se acredita."

#1 - Livro favorito

Não vou falar do livro favorito, favoritão mesmo, porque seria sacanagem falar do Encontro Marcado... DE NOVO. Eu já falei tanto desse livro na vida, e exatamente nessa mesma posição, que é melhor variar um pouco. O fato é que o top 3 de livros no meu coração é, atualmente, o seguinte (em ordem alfabética, porque né):

  • A Menina que Roubava Livros
  • Cem Anos de Solidão
  • Grande Sertão: Veredas
  • O Encontro Marcado

Sim, tem quatro livros aí. Me deixa.

Mas vamos falar de coisa boa, vamos falar de Cem Anos de Solidão.

Autor: Gabriel García Márquez
Ano: 1967
País: Colômbia

"Só quando começou a desmontar a porta do quartinho é que Úrsula se atreveu a lhe perguntar por que o fazia, e ele lhe respondeu com certa amargura: “Já que ninguém quer ir embora, nós iremos sozinhos.” Úrsula não se alterou.
— Nós não iremos — disse. — Ficaremos aqui, porque aqui tivemos um filho.
— Ainda não temos um morto — ele disse. — A gente não é de um lugar enquanto não tem um morto enterrado nele.
Úrsula replicou, com uma suave firmeza:
        — Se é preciso que eu morra para que vocês fiquem aqui, eu morro."

Cem anos de solidão conta a história de uma família, em várias e várias gerações. Se passa no povoado fictício de Macondo. Um gênero? Realismo fantástico.

Histórias de família sempre têm aquela coisa toda especial. Talvez seja o drama - que invariavelmente sempre vai estar lá, porque, oras, estamos falando de famílias, certo? -, talvez seja a possibilidade de acompanhar vidas, talvez seja  curiosidade de saber onde vai dar o destino e se ele está mesmo ligado a outros tantos fatores. Em Cem anos de solidão existem muitos e muitos personagem (dá uma olhada na árvore genealógica), e boa parte deles com o mesmo nome: José Aureliano Buendía. Uma das coisas que eu achei impressionante foi que, mesmo não dando pra se aprofundar totalmente em tanta gente, cada José Buendía é único e em determinado momento não tem mais como confundi-los.

Só li dois livros do Gabriel García Márquez na vida: esse e O amor nos tempos do cólera, que por acaso terminei hoje e fica pra outro dia do meme. Mas mesmo tendo lido pouco, já sou apaixonada pela escrita. Não sou exatamente uma grande fã do espanhol, mas não posso negar que o que é escrito nessa língua tem uma musicalidade própria. E falo isso da tradução mesmo, imagina o original. Mas não é só a língua que dá essa fluidez ao texto, é o estilo do autor também. Gosto tanto desse estilo dele quanto do Saramago, e até que os dois tem lá as suas semelhanças. Fico imaginando esses autores (e Guimarães Rosa também) quando traduzidos pro inglês, ou pra qualquer outra língua não latina. Complicado, né.

Olha ele aqui na lista das 100 melhores primeiras frases de romances.
"Muitos anos depois, em frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o seu pai o levou a conhecer o gelo." 

domingo, 2 de janeiro de 2011

I'd just be the catcher in the rye and all. I know it's crazy, but that's the only thing I'd really like to be.

Três coisas pra hoje:

1. Feliz Ano Novo, pessoas :D
2. O Bertonie pediu os links dos filmes do Xavier Dolan pra baixar. Aqui estão: J'ai tué ma mère e Les amours imaginaires (aliás, a maioria dos filmes que eu baixo vêm do Laranja Psicodélica mesmo ~merchan feelings~)
3. O post em si:

.x.

Há alguns milhões de anos eu disse aqui que escreveria sobre Lolita quando terminasse de ler. Pois bem, terminei de ler e nunca voltei pra falar sobre o livro, mas hoje eu estava lendo uns comentários sobre ele no 6v e resolvi voltar.

Na verdade, eu não quero falar apenas sobre Lolita, mas sobre a reação que acontece às vezes com determinados livros como Lolita. Então vamos aos fatos.

Como todo mundo provavelmente já sabe, o livro conta a história de Hubert Hubert, o pedófilo (e narrador), e Lolita, a sua enteada de treze anos (e vítima). É exatamente nessa hora em que você conta essa micro-sinopse de uma linha que vem uma enxurrada de gente dizer que nunca leria uma coisa dessas, que o livro é ruim ou, pior ainda, que é apologia à pedofilia. Em noventa por cento dos casos a pessoa obviamente não vai nem ter lido o livro antes de vir dizer isso.

O que eu tenho a dizer sobre Lolita é provavelmente o que você já ouviu falar em algum lugar: a beleza do livro está na narração. Não é à toa que tenha se tornado um clássico da literatura, assim como não é à toa que seja visto com maus olhos até hoje. Afinal, estamos falando de um livro narrado em primeira pessoa por um personagem pedófilo, livro esse que foi lançado em 1955. Reflita.

Eu sempre desconfio muito quando alguém diz que um livro faz apologia a alguma coisa, principalmente se for alguma coisa ruim. E desconfio mais ainda se esse for o motivo pelo qual a pessoa diz que você não deve ler o livro. Eu tenho um monte de motivos pra não ler alguns livros - não gostar do autor, não me interessar pela história, nunca ter visto, coisas do tipo -, mas não pura e simplesmente não ler porque fala sobre uma coisa ruim. Erm...

Não estou dizendo com isso que todo mundo deveria ler e gostar de Lolita - estou dizendo que não se deve deixar de ler levando em conta só o tema do livro. É basicamente a mesma coisa que acontece com O apanhador no campo de centeio.

Pra quem não sabe (e eu realmente não lembro se já falei dele aqui), O apanhador no campo de centeio é um livro de 1951, que conta um fim de semana da vida de um garoto de dezesseis anos chamado Holden Caulfield. Foi um dos primeiros livros a usar o fluxo de pensamento e a considerar a adolescência como uma fase específica - e importante - da vida. Mas esses não foram os únicos motivos pelos quais o livro ficou conhecido; em 1980 o assassino de John Lennon estava com o livro quando cometeu o crime e ainda disse que foi dele que "tirou a inspiração" para matar. 

Depois disso não demorou pra aparecerem mais histórias sobre como o livro incentivava as pessoas a se tornarem violentas e all that stuff. Erm... Eu li O apanhador no campo de centeio há mais de um ano e, olha só que maravilha, não matei ninguém.

O fato é que isso me irrita pra caramba. Isso de julgar os livros - qualquer coisa, na verdade - por coisas assim. Como eu disse uma vez, há quase exatamente um ano, um livro faz por você o que você deixa ele fazer. Por isso que O Encontro Marcado é tão importante pra mim, por exemplo, quando é apenas mais um livro qualquer pra alguma outra pessoa. Ou então por isso que, sei lá, eu acho O Guarani o livro mais chato da face da terra e existe uma pessoa que adore (-q?). 

Não é errado escrever ou ler sobre assuntos que não são exatamente coelhinhos coloridos fofinhos. Não é porque alguém vai ler e achar que aquilo ali é apologia a alguma coisa que necessariamente isso vai ser. Tampouco significa que o autor seja um bandido ou um pedófilo ou qualquer outra coisa. O que acontece às vezes é que não se discerne a realidade da ficção, e dá nisso. Vamos ler direitinho, sim?

domingo, 13 de junho de 2010

Só pelo que são.

"Às vezes as pessoas são bonitas.
Não pela aparência física.
Nem pelo que dizem.
Só pelo que são."



Eu sou o mensageiro, apesar de ter sido escrito antes do best seller A menina que roubava livros, só se tornou conhecido no Brasil depois do sucesso desse último. A uma primeira impressão, talvez seja difícil crer que as duas histórias pertencem ao mesmo autor.

A menina que roubava livros, pelo qual a maioria dos leitores foi apresentada a Zusak, é de fato uma obra-prima, tanto pela profundidade da história quanto pela linguagem utilizada pelo autor. Então era de se esperar que, ao se deparar com uma história aparentemente mais simples houvesse uma certa desconfiança por parte dos leitores.

Eu sou o mensageiro nos conta a história de Ed, um taxista de dezenove anos que um dia, meio sem querer, evita um assalto a um banco. Desse dia em diante, Ed, que sempre fora um fracassado, começa a receber cartas de baralho com nomes e endereços de pessoas a quem ele deve ajudar de alguma forma. Sem saber por que, e muitas vezes nem mesmo como, fazer isso, Ed passa a ter um objetivo na vida e se torna o mensageiro para essas pessoas.

Nas mãos de outro autor, essa trama talvez se tornasse mais um thriller de suspense ou romance de auto-ajuda, mas Zusak deu a sua voz ao protagonista Ed, assim como daria à Morte quatro anos depois.

Com apenas vinte e sete anos, Zusak usou em Eu sou o mensageiro o estilo que vemos amadurecido em A menina que roubava livros. Com uma narrativa coloquial, a história de Ed toma ares de leveza que nos conduzem mais facilmente – e mais naturalmente – aos conflitos mais profundos suscitados pela trama. Em A menina que roubava livros, apesar do contexto histórico extremamente tenso e de toda a densidade emocional, também podemos sentir uma leveza na narrativa.

Outro elemento característico do estilo de Zusak é a sinestesia. Com expressões que mesclam os sentidos em usos inesperados, ele nos faz realmente sentir a história, como talvez não sentíssemos com uma descrição mais tradicional.

Assim, a história de Ed cresce aos nossos olhos, mas não “apenas” por lançado as sementes do estilo extremamente sensorial de Zusak. Eu sou o mensageiro não é um livro surpreendente por sua trama – que às vezes é até mesmo previsível -, até porque não parece que criar suspense faça parte do estilo do autor: em A menina que roubava livros, a Morte nos antecipava o que ainda iria acontecer, assim como às vezes nós fazemos na história de Ed, mas o importante nesses livros não é exatamente o que acontece, mas sim como chegamos até lá e o que vamos sentindo no caminho.

Desajeitado e jovial, Ed nos leva por um caminho que faz rir e chorar, e no fim – repleto de metalinguagem – não é apenas ele quem se torna uma pessoa melhor.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Ama-me menos, mas ama-me por mais tempo

[talvez uma vez ou duas você tenha se perguntado por que diabos eu coloco frases nos títulos dos posts. Bom, tem gente que coleciona selos. Eu coleciono frases.]


Eu estava conversando com o Lucas outro dia sobre os livros que estávamos lendo. Daí, chegamos à conclusão de que sentimos a mesma coisa (vide último parágrafo deste post aqui) ao lê-los e, no entanto, são livros completamente diferentes, de autores diferentes: para mim, Guimarães Rosa com o Grande Sertão: Veredas e, para ele, Clarice Lispector com A paixão segundo G.H.


Daí eu fiquei pensando nisso e cheguei a outra conclusão: que quando você entende o que autor está querendo dizer, é como se, naquele momento, o autor também te entendesse. E então o ciclo se completa com perfeição. É o ápice.


Falando de outra coisa agora: como eu prometi ao Iury (e não cumpri, porque sou problemática e esquecida), vou tentar explicar mais uma vez por que diabos o Will não está dando as caras por aqui.


É o seguinte, pessoas bonitas do meu coração: o segundo capítulo do Will ainda está pela metade, mas eu vou postar assim mesmo o que já está pronto. De acordo? Se sim, posto quando terminarem minhas idéias sobre o que escrever para os próximos dias (acreditem, estou me segurando para não postar com mais frequência).


A verdade sobre o Will, nesse exato momento, é que eu parei mesmo de escrevê-lo por um tempo. Há dois motivos: o primeiro, é que eu passei esses últimos meses me dedicando a outra história. O Will é, basicamente, um romance, e eu não faço planejamento específico pra ele nem escrevo os capítulos em ordem (como vocês bem sabem, de tanto que eu tagarelei sobre isso aqui no .status.). Essa outra coisa que estou escrevendo, no entanto, é uma espécie de suspense (bom, eu espero que seja mesmo) e precisa de planejamento e precisa ser escrita toda bonitinha, na ordem e tudo o mais. O outro motivo é que o Will meio que me esgota. De quando em quando eu tenho que parar, até ficar com bastaaaante vontade de voltar a escrever. Daí, eu volto.


Agora vamos, de fato, ao que eu tinha planejado para esse post. Uma overdose de Louis Garrel.


[informação inútil, só pra constar: atualmente, meu top 3 de homens-bonitos-que-nunca-vou-conhecer é constituído por Jeff Buckley (cantor), Louis Garrel (ator) e Ben Barnes (ator).]


*


Les Chansons d’Amour (2007)


As Canções de Amor (aqui e em Portugal) é um filme francês de 2007, dirigido por Christophe Honoré. O início da trama é o seguinte: Ismaël (Louis Garrel) e Julie (Ludivine Sagnier) são namorados, mas, para não cair na rotina e tudo o mais, convidam uma terceira pessoa para a relação; Alice (Clotilde Hesme), uma colega de trabalho de Ismaël.


Tudo muito bem, por assim dizer, com os problemas básicos de uma relação a três e tudo o mais, até que algo acontece e tudo muda. Daí é melhor eu não dizer muita coisa, senão estrago a surpresa, né? O filme é dividido em três atos: a partida, a ausência e o recomeço, que representam as fases desse momento da vida de Ismaël.


O que eu posso dizer é que o filme é lindo e não é só por causa do Garrel. Se você não gosta de musicais, nunca assistiu ou nunca teve saco/vontade/coragem/whatever pra assistir, esse é um bom começo, porque Les Chansons d’Amour é um filme, acima de tudo, delicado. Os personagens cantam quando se apaixonam, pois não sabem se expressar de outra forma. E as músicas se fundem tão bem às cenas que parecem diálogos. Não é exagero. Chansons encanta pelo modo como o cotidiano, como cada pessoa que você encontra na rua pode ter uma proporção incrível na sua vida. Aqueles pequenos momentos que a gente às vezes nem se dá conta de que está vivendo.


Não percam a oportunidade de assistir, se a tiverem. Posso compará-lo com O Fabuloso Destino de Amélie Poulain como um daqueles filmes que te deixam mais leve, até mesmo pela simplicidade da produção. É nessas horas em que a gente vê que não só de efeitos especiais é que se vive. (e me contem quando estiverem suspirando na cena final)


*


Os Sonhadores (The Dreamers, 2003)


Olha o Garrel aí de novo. E em mais um triângulo amoroso.


Os Sonhadores é um filme ítalo-franco-britânico de Bernardo Bertolucci, baseado no romance de Gilbert Adair chamado The Holy Innocents (Os Inocentes Sagrados).


É o seguinte: na Paris de 1968, vive o estudante de intercâmbio Matthew (Michael Pitt), um americano apaixonado por cinema. E é exatamente lá onde, durante um dos tantos protestos que inundaram este ano, ele conhece os irmãos gêmeos Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green).


Eles se tornam amigos e Matthew acaba sendo convidado para passar alguns dias na casa dos irmãos, quando os pais deles viajam. No começo, Matthew estranha a grande intimidade que os irmãos têm um com o outro, mas acaba se tornando parte disso também após uma pequena “prova de iniciação” e, durante o tempo que passam no apartamento, se isolam do mundo e da revolucionária França de ’68.


Em meio a muito sexo, cinema, música e filosofia – não necessariamente nessa ordem – ficam evidentes as ótimas interpretações do trio principal. Michael Pitt me surpreendeu no começo pela cara de garoto, a la Leonardo di Caprio (que, por sinal, foi cogitado para o papel), mas ele literalmente cresce com o filme. Primeiramente confuso com a relação de Theo e Isabelle, depois encantado e finalmente mais realista, tentando chamá-los à razão. À sua própria razão, aliás.


E também vale salientar que nunca fica evidente uma relação de fato incestuosa entre Theo e Isabelle. Eles se amam, sim, de um modo que pode ser considerado mais do que um amor “apenas” fraternal – talvez mais por parte dela do que dele – mas nunca é evidenciado no filme se houve, há, ou haverá algo entre eles de fato.



Garrel, dessa vez, é o típico pseudo-revolucionário: o jovem que idolatra os grandes líderes e seus ideais, mas não os põe em prática. Todos os três, aliás, só se envolvem realmente com os seus supostos ideais quando a revolução praticamente bate à sua porta.


E Eva Green. Que olhos essa mulher tem! Unindo a eles a interpretação de Isabelle, temos uma mistura perfeita de sedução, entrega e ao mesmo tempo insegurança e inexperiência. Como ela mesma diz em um momento do filme, está sempre atuando. A vida deles é basicamente uma imitação do cinema.


Reparem na cena em que Theo e Matthew conversam em um café. O que tem de tão especial? Pura e simplesmente a música que toca ao fundo, discretamente: Love me, please love me, de Michel Polnareff. Aliás, a trilha sonora do filme é ótima, por completo. Afinal, '68 também foi uma grande época pra música. Janis, Hendrix... E tudo isso, pasmem, na França.


[desculpem aí se foi difícil para ler, mas é que eu não podia falar do Garrel desses filmes sem imagens ç.ç]

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter.

Como eu disse aqui uma vez, antes de ler Grande Sertão: Veredas, eu não tinha muito interesse em romances regionalistas. Preconceito, mesmo. Achava que seria chato. Grande Sertão, no entanto, me surpreendeu.

Do que se trata? Basicamente, é uma narrativa épica que conta a história do amor impossível do jagunço Riobaldo por seu amigo, Diadorim, e as duas grandes guerras que o bando deles enfrentou no sertão de Minas Gerais. Simples assim.

Nas primeiras páginas eu já percebi o quanto essa leitura seria diferente de qualquer outra. A linguagem regionalista levada ao extremo, por assim dizer, torna a leitura lenta e densa, e ao mesmo tempo forma uma das coisas mais interessantes da obra: a inovação lingüística. Apesar de ser contada num fôlego só do narrador, sem capítulos, a história não pode ser lida assim, de uma vez. Levei praticamente dois meses para ler, não só por causa das palavras que exigem um entendimento melhor do contexto, mas também por causa da história em si.

A história de Riobaldo é lenta e claustrofóbica, cheia de reflexões sobre vários aspectos da vida, mesclados às suas incertezas e seu amor impossível por Diadorim. É algo que não deve ser lido apenas “por ler”. Leva um tempo pra digerir, pois você não apenas recebe a informação que é contada, mas também pensa junto com Riobaldo. Durante os quase dois meses que passei lendo, parecia que o livro nunca ia acabar. E isso não era ruim, pois parecia até que os personagens eram velhos conhecidos meus, de tanto que eu sentia que sabia sobre eles, e que a cada dia eu abriria o livro na página seguinte e ouviria uma nova história.

Não é fácil falar sobre uma parte ou outra que tenha gostado mais. Grande Sertão: Veredas é para ser tratado, literalmente, como um todo. Até mesmo os aspectos que poderiam, talvez, serem chamados de negativos (como a leitura lenta e, por vezes, angustiante) tornam tudo mais interessante.

Guimarães Rosa merece respeito por ter criado essa obra. Aliás, um livro que começa “nonada” e termina no infinito (∞) merece respeito. Não só pela genialidade da linguagem e da narração, mas também pela beleza. A história de Riobaldo e Diadorim é, de fato, uma das mais bonitas e bem contadas histórias de amor que já vi. A despeito de toda a complexidade e dos questionamentos de Riobaldo sobre o fato de ser um amor impossível, é tudo tão simples quanto observar as flores ao longo da margem de um rio. São os pequenos gestos, os momentos de observação, os olhos, as palavras. É ao mesmo tempo tão simples e tão complexo que parece que somos nós mesmos que estamos pensando e relembrando aquilo, e talvez por isso seja tão emocionante e real. Pois, ao mesmo tempo que cada frase é como um soco no estômago pelas tantas verdades, há também uma espécie de conforto. É como se alguém nos soprasse no ouvido as palavras exatas para o que queremos expressar e por tantas vezes não conseguimos.

domingo, 16 de novembro de 2008

(Sem título)

Olá, pessoas...
Uffa! Semana super corrida essa última... Mas o pior foi na quarta, recebi um notícia trágica de que um amigo havia se suicidado. Mas, graças à Deus foi um mal entendido minúsculo que gerou uma proporção tamanha. Depois que... ando meio deprimido por não ter nem um livro pra ler no momento, aquela sequência de livros pra ler que fiz foi pro espaço. É que estou tão absurdamente alucinado por Paulo Coelho, que espero ansiosamente que minha irmã cumpra a promessa de me comprar o livro
'Onze minutos' dele.
Aliás, aqui em Fortaleza está acontecendo a "Bienal", feira de livros no centro de convenções, que sempre é uma ótima oportunidade de quebrar o porquinho e comprar livros. xD (Pena que eu não tenho um porquinho) Mas, mesmo assim, pretendo comprar alguns que uma amiga indicou: "A arte da meditação", que segundo ela vem com um CD, você escuta-o enquanto ler... fiquei super excitado com a idéia, e andou me falando também de um autor,
Osho, que escreve livros voltados pra essas temáticas, tem um chamado 'Farmácia da alma' que ela diz ser muito bom.

A vida nem sempre é como esperamos que seja, e como diz Clarice Lispector:

"Não me dêem fórmulas certas,
porque eu não espero acertar sempre..."

Como diz Linhares Filho:

"aqui estou confinado
entre o esquecimento e a indiferença..."


Não me resta dizer mais nada. Um Cheiiro. xD

P.S.- Fiz um vídeo ontem, vou postar aqui, espero que gostem. (é meio deprê, senão não pareceria cmg. rsrs)