quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Somos o intervalo entre o nosso desejo e aquilo que o desejo dos outros fizeram de nós

Fragmento de Veronika decide morrer, nesse momento da história ela está em um sanatório, foi mandada para lá após ter tentado o suicídio: tomando dúzias de comprimidos (uma droga aê). Através dos quais entrara em coma, tendo sido seu coração irremediavelmente afetado e deixará de bater em breve:

"Do lado de fora da janela gradeada, o céu estava coberto de estrelas, com uma lua em quarto crescente subindo por trás das montanhas. Os poetas gostavam da lua cheia, escreviam milhares de versos sobre ela, mas Veronika era apaixonada pela meia-lua, porque ainda havia espaço para aumentar, expandir-se e preencher de luz toda a superfície, antes da inevitável decadência..."


"... nesse momento ela odiava tudo. A biblioteca, onde trabalhara com seu monte de livros cheios de explicações sobre a vida. O colégio onde fora obrigada a passar noites inteiras aprendendo álgebra, embora não conhecesse nenhuma pessoa - exceto os professores e matemáticos - que precisasse de álgebra para ser mais feliz. Por que a fizeram estudar tanto álgebra, ou geometria, ou aquela montanha de coisas absolutamente inúteis?

Veronika empurrou a porta da sala de estar, chegou diante do piano, abriu sua tampa, e - com toda a força - bateu com as mãos no teclado. Um acorde louco, sem nexo, irritante, ecoando pelo ambiente vazio, batendo nas paredes, voltando aos seus ouvidos sob a forma de um ruído agudo, que parecia arranhar sua alma. Mas isso era o melhor retrato de sua alma naquele momento.

Tornou a bater com as mãos e mais uma vez as notas dissonantes reverberaram por toda parte.

"Sou louca. Posso fazer isso. Posso odiar, e posso espancar o piano. Desde quando os doentes mentais sabem colocar as notas em ordem?"


Então, novamente, uma profunda paz inundou-a, e Veronika voltou a olhar o céu estrelado, com a lua em quarto crescente - sua favorita - enchendo de luz soave o lugar onde se encontrara. Veio de novo a sensação de que o infinito e a eternidade andavam de mãos dadas e bastava contemplar um deles - como o universo sem limites - para notar a presença do outro, o tempo que não termina nunca, que não passa, que permanece no presente, onde estão todos os segredos da vida. Entre a enfermaria e a sala ela fora capaz de odiar, tão forte e tão intensamente, que não lhe sobrara nenhum rancor no coração. Deixara que seus sentimentos negativos, represados durante anos em sua alma, viesse finalmente à tona. Ela os havia sentido e agora não eram mais necessários - podiam partir.

Ficou em silêncio vivendo seu momento presente, deixando que o amor ocupasse o espaço vazio que o ódio deixara. Quando sentiu que chegara o momento, virou para a lua e tocou uma sonata em sua homenagem - sabendo que ela escutava, ficava orgulhosa e isso provocava ciúme nas estrelas. Tocou então uma música para as estrelas, outra para o jardim e uma terceira para as montanhas que não podia ver de noite, mas sabia que estavam lá.
No meio da música para jardim, outro louco apareceu - Eduard, um esquizofrênico que estava além da possibilidade de cura. Ela não se assustou com sua presença: ao contrário, sorriu, e para sua surpresa ele sorriu de volta
Também no seu mundo distante, mais distante do que a lua, a música era capaz de penetrar e fazer milagres."

Juro que pretendia colocar um fragmento bem curtinho, só para fazer alusão da história (o que vou fazer agora em todos os posts). Mas, aproveitando minha disposição súbita e meu encantamento pelos trechos aqui expostos (final de um capítulo muito interessante), decidi dedicar o post inteiro para o mesmo.

Um cheiro.

3 comentários:

Rodrigo Hyoukami disse...

Um trecho enteressantissimo...
um quadro que não buscariamos...
não creio ser realmte animador...
mas certamente nos leva a dor...
estranho como ver o sofrer...
geralmente nos leva ao esquecer...
mas voltemos ao necessario...
vim lhe agradecer o comentario...
parabenizar pelo post bem colocado..
esteja certo continuara acompanhado...
me retiro por hora...
espero que estejas bem...
espero que desculpe minha demora...
fique bem.

Mahzinha disse...

Definitivamente _VOU_ comprar esse livro. Parece ser muito bom, parece ser do tipo de livro que gosto, que leva muito a reflexão. Adorei!

morango disse...

amei aki... adorei a história caramba que massa!!! bju fuiz