"Às vezes as pessoas são bonitas.
Não pela aparência física.
Nem pelo que dizem.
Só pelo que são."
Eu sou o mensageiro, apesar de ter sido escrito antes do best seller A menina que roubava livros, só se tornou conhecido no Brasil depois do sucesso desse último. A uma primeira impressão, talvez seja difícil crer que as duas histórias pertencem ao mesmo autor.
A menina que roubava livros, pelo qual a maioria dos leitores foi apresentada a Zusak, é de fato uma obra-prima, tanto pela profundidade da história quanto pela linguagem utilizada pelo autor. Então era de se esperar que, ao se deparar com uma história aparentemente mais simples houvesse uma certa desconfiança por parte dos leitores.
Eu sou o mensageiro nos conta a história de Ed, um taxista de dezenove anos que um dia, meio sem querer, evita um assalto a um banco. Desse dia em diante, Ed, que sempre fora um fracassado, começa a receber cartas de baralho com nomes e endereços de pessoas a quem ele deve ajudar de alguma forma. Sem saber por que, e muitas vezes nem mesmo como, fazer isso, Ed passa a ter um objetivo na vida e se torna o mensageiro para essas pessoas.
Nas mãos de outro autor, essa trama talvez se tornasse mais um thriller de suspense ou romance de auto-ajuda, mas Zusak deu a sua voz ao protagonista Ed, assim como daria à Morte quatro anos depois.
Com apenas vinte e sete anos, Zusak usou em Eu sou o mensageiro o estilo que vemos amadurecido em A menina que roubava livros. Com uma narrativa coloquial, a história de Ed toma ares de leveza que nos conduzem mais facilmente – e mais naturalmente – aos conflitos mais profundos suscitados pela trama. Em A menina que roubava livros, apesar do contexto histórico extremamente tenso e de toda a densidade emocional, também podemos sentir uma leveza na narrativa.
Outro elemento característico do estilo de Zusak é a sinestesia. Com expressões que mesclam os sentidos em usos inesperados, ele nos faz realmente sentir a história, como talvez não sentíssemos com uma descrição mais tradicional.
Assim, a história de Ed cresce aos nossos olhos, mas não “apenas” por lançado as sementes do estilo extremamente sensorial de Zusak. Eu sou o mensageiro não é um livro surpreendente por sua trama – que às vezes é até mesmo previsível -, até porque não parece que criar suspense faça parte do estilo do autor: em A menina que roubava livros, a Morte nos antecipava o que ainda iria acontecer, assim como às vezes nós fazemos na história de Ed, mas o importante nesses livros não é exatamente o que acontece, mas sim como chegamos até lá e o que vamos sentindo no caminho.
Desajeitado e jovial, Ed nos leva por um caminho que faz rir e chorar, e no fim – repleto de metalinguagem – não é apenas ele quem se torna uma pessoa melhor.