segunda-feira, 6 de setembro de 2010

FOR YOU

Moony, desculpa quebrar nossa política de intervalos mínimos entre os posts, mas é mais forte do que eu...



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Eu lembro como você me olhava quando eu chegava em sala, atrasado, pra variar ( e, às vezes, me mandava mensagem perguntando se eu iria pro colégio ou dizendo que eu estava perdendo a aula do Bandeira). Caminhava em tua direção e sentávamos nos mesmos lugares todos os dias. Lembro de tuas unhas grandes, pontudas e quadradas. Lembro de ficar com raiva por não conseguir obter nenhuma informação antecipada através de suas expressões (inexpressivas). Lembro que teus seios marcavam na farda e isso era muito sensual, apesar de você não ligar à mínima. Lembro de te ver escrever – e essa é uma das coisas que sinto mais falta: as linhas do teu caderno eram pretas (não sei por que lembro isso) e se alguma parte do “Will” não lhe agradava você apagava folha por folha, explicando-me que não precisava apagar perfeitamente e que eu e tua mãe éramos muito perfeccionistas nesse ponto. Hoje eu fico em dúvida em como, de fato, devo apagar.

Lembro de como eu não queria estar com mais ninguém, de nossos segredos secretos, de nossa alma escancarada. Lembro do primeiro dia que te vi e, inexplicavelmente, da saia marrom que você usava e te fazia parecer, sei lá, diferente. Lembro de como estar com você parecia eterno até o dia que lembro que te abracei porque você iria partir, de te ver olhar para trás através do vidro traseiro do carro azul da tua irmã e depois de não ver mais o carro nem você nem nada.

E eu lembro, sobretudo, de nossas promessas, de nos darmos nossas liberdades, de brincar com tua orelha, da biblioteca e de te fazer ir pra coordenação. Lembro-me de não nos importarmos nem por um segundo, pois nós sabíamos de tudo. E, hoje, penso não saber de nada.


Setembro/2010 às 01:59

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

It's only love. What's everyone so scared of?


Dia desses eu estava dando uma olhada no Laranja Psicodélica, como sempre, quando vi o post do filme Get Real, do qual eu nunca tinha ouvido falar antes. Como eu gostei da sinopse e também tenho uma quedinha por filmes dos quais nunca tinha ouvido falar antes, baixei e assisti.


Get Real é um filme inglês de 1998, com o Ben Silverstone no papel principal. Que eu saiba, o filme mais conhecido que ele fez foi Lolita (a versão de 1997, não a do Kubrick), mas o rosto e o nome dele não me são desconhecidos. 

O filme não é nenhuma obra-prima do cinema mundial, não é um Inception da vida, e foi justamente por isso que eu gostei tanto dele: por ser absolutamente comum. O roteiro é simples, você sabe o que vai acontecer, às vezes até como vai acontecer, como num típico filme adolescente da sessão da tarde. Mas não estou dizendo isso como uma ofensa, muito pelo contrário.

Sabe qual é a diferença? Get Real nunca passaria na Sessão da Tarde ou em qualquer outro horário de maior público da televisão (aberta, principalmente).

Por coincidência (ou não), dia desses eu também ouvi o RapaduraCast sobre Classificação Indicativa, e então fiquei sabendo de algumas regrinhas que são usadas para classificar filmes nos EUA (e que não mudam muito de país para país, se você for olhar):
  • Se houver mais de um "fuck" falado, sem conotação sexual, o filme é automaticamente classificado como R (não recomendado para menores de 17 anos);
  • Se houver um "fuck" com conotação sexual, também vai pro R
(pra quem não sabe, to fuck é o verbo foder, em inglês)

Essas, claro, são apenas duas coisinhas simples que vou usar pra ilustrar o caso de Get Real, mas existem outros milhões de motivos que são usados na classificação.

Ok, agora vamos unir os dois assuntos:

Get Real é um filme sobre Steven (Ben Silverstone), um garoto de dezesseis anos que é gay. Só a sua amiga Linda (Charlotte Britain) sabe disso, e os caras da escola já implicam com ele mesmo sem ter a certeza, então ele obviamente nunca contou pra mais ninguém e não está especialmente interessado em dar mais motivos pra implicância (implicância é eufemismo, né). Como em todo filme adolescente que não se preze, ele calha de se apaixonar justamente pelo atleta da escola, o John Dixon (Brad Gorton), mas tudo bem. O ponto aqui é que é através dessa relação com o John que o próprio Steven vai amadurecendo.

Olha só que interessante: não foi pelo contato com o preconceito "externo" (aquele que vem dos colegas da escola, da família e etc) que ele amadureceu, mas sim com o preconceito "interno", aquele que vem de dentro do seu próprio relacionamento com outro cara, daquela coisa de eles mesmos não terem coragem de se assumirem diante de outras pessoas e, pior, diante de si mesmos.

É aí que entra a classificação indicativa. A classificação original do filme, na Grã-Bretanha, é 15 anos, mas nos EUA ele está como R. No Brasil nem se fala, porque o filme não chegou até aqui, mas eu não tenho a menor dúvida de seria classificado para 16 anos.

Se você for inocente e acreditar em ovelhas coloridas saltitantes, pode até acreditar que isso é perfeitamente explicado pela regrinha lá de cima, porque há mais de um "fuck" falado, ainda que não com conotação sexual.

Mas acontece que Get Real é um filme levíssimo. Não tem nada gráfico demais e até mesmo as conversas e referências a sexo podem ser perfeitamente ouvidas e compreendidas por (quase) qualquer pessoa de 14 anos, por exemplo. Na Alemanha ele foi classificado como 12 anos, pra você ver como são as coisas. Pra dar um exemplo mais próximo, na Argentina foi classificado para 13 anos.

Então, olha só: não é coincidência demais que basicamente todo filme com temática homossexual pegue no mínimo um R, ou 16 anos, no caso do Brasil, enquanto que o sexo heterossexual só falta ser passado na sessão da tarde, que é livre?

Agora imagine você se Get Real fosse um desses filmes comuns que a Globo vive reprisando, e se fosse classificado para 14 anos. Imagine aí o quão maior seria o público para esse filme, que é tão simples e justamente por isso é exatamente o que o povo precisa: um meio simples para transmitir a informação ao maior número de pessoas possível.

Mas, claro, que emissora vai se atrever a perder o seu fiel público conservador passando um beijo gay antes da meia-noite?

Bah.

Fica então a dica pra assistir Get Real, e depois eu volto pra falar sobre as tentativas um tanto toscas da televisão de inserir casais e personagens gays nas novelas. Se possível, falem aí nos comentários o que acham disso :)