quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Only the French... only the French would house a cinema inside a palace.

(se você assistiu The Dreamers, deve reconhecer essa frase)


Ora, ora, vejam só. Estou quase oficialmente em férias. O que significa que eu vou passar duas semanas super feliz e vou prometer escrever muito, daí eu vou escrever pouco e passar o resto de janeiro entediada, reclamando que não tenho nada pra fazer e louca para ter aulas de novo.


Ê, vida boa. É assim que eu gosto. (não, isso não foi ironia)


Bom, enquanto eu não termino de ler o livro que estou lendo, vamos de filmes mais uma vez:


XXY (2007)


Você já assistiu algum filme argentino? É, eu também não tinha assistido, até semana passada.


Antes de tudo, mais uma pergunta: é menino ou menina? Sim, isso é o que as mulheres grávidas ouvem constantemente. Imagine então quando a pergunta está se referindo a você mesmo e você não sabe responder.


Parando de enrolar, vamos a uma sinopse básica: Alex (Inés Efron) é uma garota de quinze anos que nasceu com a síndrome de XXY (ou ainda, Síndrome de Klinefelter). Ou seja, ela é uma hermafrodita; tem características sexuais tanto masculinas quanto femininas.


Pois muito bem. A arredia Alex (interpretação ótima, diga-se de passagem) e seus pais vivem na costa Uruguaia e recebem a visitas de um casal de amigos e seu filho adolescente. A história se desenrola ao redor do relacionamento entre os jovens e a decisão de se tornar completamente mulher ou homem.



O primeiro motivo pelo qual eu recomendaria o filme seria o fato de ser bonito. Visualmente mesmo. Tem um ar melancólico, talvez meio sombrio, denso. Tenso. O segundo seria a própria Alex, uma mistura que “conserva a delicadeza do feminino, mas sabe expor na tela a agressividade do mundo masculino.” (daqui, ó)


O terceiro seria o conjunto da obra, que cria um filme bonito, angustiante e realmente bom. Eu gostei, mesmo. Sem maiores delongas e sem uma “solução” pretensiosa para o drama de Alex, um retrato da ambigüidade entre os sexos. Literalmente.


*


A Bela Junie (La Belle Personne, 2008)



Uma dica: assista Les Chansons d'Amour antes de A Bela Junie. Vou explicar por quê.


E, sim, vamos de Garrel mais uma vez. E em mais um triângulo amoroso.


A Bela Junie é um filme de Christophe Honoré, mesmo diretor de Chansons. Feito apenas um ano depois desse último, se você ver os dois filmes vai perceber o quanto eles têm em comum (inclusive boa parte do elenco).


Junie (Léa Seydoux) é uma garota de dezesseis anos que muda de escola no meio do ano letivo, depois da morte da mãe. Lá ela logo se enturma com os amigos do seu primo e começa a namorar Otto (Grégoire Leprince-Ringuet). No entanto, o professor de italiano, Nemours (Louis Garrel) se apaixona loucamente por ela.


Marca registrada de Honoré, aqui também temos as histórias paralelas dos coadjuvantes (que, para mim, é o mais fascinante), as vidas que se entrelaçam, o clima nostálgico, o tom cinzento, chuvoso, casual e delicado. E, dessa vez, a sensação de desgraça iminente e de algo incompleto.



Resultado: sim, eu gostei bastante do filme. O que mata um pouco a história é só a sensação de algo parecido com Chansons e, portanto, não completamente original, mas isso talvez se deva também ao fato de que assisti pouco tempo depois dele.


Ou seja, sugiro que assista Chansons primeiro, pra pegar como referência de qualidade.


E olha o Garrel aí, com a clássica foto do cabelo francês:




sábado, 5 de dezembro de 2009

Ama-me menos, mas ama-me por mais tempo

[talvez uma vez ou duas você tenha se perguntado por que diabos eu coloco frases nos títulos dos posts. Bom, tem gente que coleciona selos. Eu coleciono frases.]


Eu estava conversando com o Lucas outro dia sobre os livros que estávamos lendo. Daí, chegamos à conclusão de que sentimos a mesma coisa (vide último parágrafo deste post aqui) ao lê-los e, no entanto, são livros completamente diferentes, de autores diferentes: para mim, Guimarães Rosa com o Grande Sertão: Veredas e, para ele, Clarice Lispector com A paixão segundo G.H.


Daí eu fiquei pensando nisso e cheguei a outra conclusão: que quando você entende o que autor está querendo dizer, é como se, naquele momento, o autor também te entendesse. E então o ciclo se completa com perfeição. É o ápice.


Falando de outra coisa agora: como eu prometi ao Iury (e não cumpri, porque sou problemática e esquecida), vou tentar explicar mais uma vez por que diabos o Will não está dando as caras por aqui.


É o seguinte, pessoas bonitas do meu coração: o segundo capítulo do Will ainda está pela metade, mas eu vou postar assim mesmo o que já está pronto. De acordo? Se sim, posto quando terminarem minhas idéias sobre o que escrever para os próximos dias (acreditem, estou me segurando para não postar com mais frequência).


A verdade sobre o Will, nesse exato momento, é que eu parei mesmo de escrevê-lo por um tempo. Há dois motivos: o primeiro, é que eu passei esses últimos meses me dedicando a outra história. O Will é, basicamente, um romance, e eu não faço planejamento específico pra ele nem escrevo os capítulos em ordem (como vocês bem sabem, de tanto que eu tagarelei sobre isso aqui no .status.). Essa outra coisa que estou escrevendo, no entanto, é uma espécie de suspense (bom, eu espero que seja mesmo) e precisa de planejamento e precisa ser escrita toda bonitinha, na ordem e tudo o mais. O outro motivo é que o Will meio que me esgota. De quando em quando eu tenho que parar, até ficar com bastaaaante vontade de voltar a escrever. Daí, eu volto.


Agora vamos, de fato, ao que eu tinha planejado para esse post. Uma overdose de Louis Garrel.


[informação inútil, só pra constar: atualmente, meu top 3 de homens-bonitos-que-nunca-vou-conhecer é constituído por Jeff Buckley (cantor), Louis Garrel (ator) e Ben Barnes (ator).]


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Les Chansons d’Amour (2007)


As Canções de Amor (aqui e em Portugal) é um filme francês de 2007, dirigido por Christophe Honoré. O início da trama é o seguinte: Ismaël (Louis Garrel) e Julie (Ludivine Sagnier) são namorados, mas, para não cair na rotina e tudo o mais, convidam uma terceira pessoa para a relação; Alice (Clotilde Hesme), uma colega de trabalho de Ismaël.


Tudo muito bem, por assim dizer, com os problemas básicos de uma relação a três e tudo o mais, até que algo acontece e tudo muda. Daí é melhor eu não dizer muita coisa, senão estrago a surpresa, né? O filme é dividido em três atos: a partida, a ausência e o recomeço, que representam as fases desse momento da vida de Ismaël.


O que eu posso dizer é que o filme é lindo e não é só por causa do Garrel. Se você não gosta de musicais, nunca assistiu ou nunca teve saco/vontade/coragem/whatever pra assistir, esse é um bom começo, porque Les Chansons d’Amour é um filme, acima de tudo, delicado. Os personagens cantam quando se apaixonam, pois não sabem se expressar de outra forma. E as músicas se fundem tão bem às cenas que parecem diálogos. Não é exagero. Chansons encanta pelo modo como o cotidiano, como cada pessoa que você encontra na rua pode ter uma proporção incrível na sua vida. Aqueles pequenos momentos que a gente às vezes nem se dá conta de que está vivendo.


Não percam a oportunidade de assistir, se a tiverem. Posso compará-lo com O Fabuloso Destino de Amélie Poulain como um daqueles filmes que te deixam mais leve, até mesmo pela simplicidade da produção. É nessas horas em que a gente vê que não só de efeitos especiais é que se vive. (e me contem quando estiverem suspirando na cena final)


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Os Sonhadores (The Dreamers, 2003)


Olha o Garrel aí de novo. E em mais um triângulo amoroso.


Os Sonhadores é um filme ítalo-franco-britânico de Bernardo Bertolucci, baseado no romance de Gilbert Adair chamado The Holy Innocents (Os Inocentes Sagrados).


É o seguinte: na Paris de 1968, vive o estudante de intercâmbio Matthew (Michael Pitt), um americano apaixonado por cinema. E é exatamente lá onde, durante um dos tantos protestos que inundaram este ano, ele conhece os irmãos gêmeos Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green).


Eles se tornam amigos e Matthew acaba sendo convidado para passar alguns dias na casa dos irmãos, quando os pais deles viajam. No começo, Matthew estranha a grande intimidade que os irmãos têm um com o outro, mas acaba se tornando parte disso também após uma pequena “prova de iniciação” e, durante o tempo que passam no apartamento, se isolam do mundo e da revolucionária França de ’68.


Em meio a muito sexo, cinema, música e filosofia – não necessariamente nessa ordem – ficam evidentes as ótimas interpretações do trio principal. Michael Pitt me surpreendeu no começo pela cara de garoto, a la Leonardo di Caprio (que, por sinal, foi cogitado para o papel), mas ele literalmente cresce com o filme. Primeiramente confuso com a relação de Theo e Isabelle, depois encantado e finalmente mais realista, tentando chamá-los à razão. À sua própria razão, aliás.


E também vale salientar que nunca fica evidente uma relação de fato incestuosa entre Theo e Isabelle. Eles se amam, sim, de um modo que pode ser considerado mais do que um amor “apenas” fraternal – talvez mais por parte dela do que dele – mas nunca é evidenciado no filme se houve, há, ou haverá algo entre eles de fato.



Garrel, dessa vez, é o típico pseudo-revolucionário: o jovem que idolatra os grandes líderes e seus ideais, mas não os põe em prática. Todos os três, aliás, só se envolvem realmente com os seus supostos ideais quando a revolução praticamente bate à sua porta.


E Eva Green. Que olhos essa mulher tem! Unindo a eles a interpretação de Isabelle, temos uma mistura perfeita de sedução, entrega e ao mesmo tempo insegurança e inexperiência. Como ela mesma diz em um momento do filme, está sempre atuando. A vida deles é basicamente uma imitação do cinema.


Reparem na cena em que Theo e Matthew conversam em um café. O que tem de tão especial? Pura e simplesmente a música que toca ao fundo, discretamente: Love me, please love me, de Michel Polnareff. Aliás, a trilha sonora do filme é ótima, por completo. Afinal, '68 também foi uma grande época pra música. Janis, Hendrix... E tudo isso, pasmem, na França.


[desculpem aí se foi difícil para ler, mas é que eu não podia falar do Garrel desses filmes sem imagens ç.ç]

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter.

Como eu disse aqui uma vez, antes de ler Grande Sertão: Veredas, eu não tinha muito interesse em romances regionalistas. Preconceito, mesmo. Achava que seria chato. Grande Sertão, no entanto, me surpreendeu.

Do que se trata? Basicamente, é uma narrativa épica que conta a história do amor impossível do jagunço Riobaldo por seu amigo, Diadorim, e as duas grandes guerras que o bando deles enfrentou no sertão de Minas Gerais. Simples assim.

Nas primeiras páginas eu já percebi o quanto essa leitura seria diferente de qualquer outra. A linguagem regionalista levada ao extremo, por assim dizer, torna a leitura lenta e densa, e ao mesmo tempo forma uma das coisas mais interessantes da obra: a inovação lingüística. Apesar de ser contada num fôlego só do narrador, sem capítulos, a história não pode ser lida assim, de uma vez. Levei praticamente dois meses para ler, não só por causa das palavras que exigem um entendimento melhor do contexto, mas também por causa da história em si.

A história de Riobaldo é lenta e claustrofóbica, cheia de reflexões sobre vários aspectos da vida, mesclados às suas incertezas e seu amor impossível por Diadorim. É algo que não deve ser lido apenas “por ler”. Leva um tempo pra digerir, pois você não apenas recebe a informação que é contada, mas também pensa junto com Riobaldo. Durante os quase dois meses que passei lendo, parecia que o livro nunca ia acabar. E isso não era ruim, pois parecia até que os personagens eram velhos conhecidos meus, de tanto que eu sentia que sabia sobre eles, e que a cada dia eu abriria o livro na página seguinte e ouviria uma nova história.

Não é fácil falar sobre uma parte ou outra que tenha gostado mais. Grande Sertão: Veredas é para ser tratado, literalmente, como um todo. Até mesmo os aspectos que poderiam, talvez, serem chamados de negativos (como a leitura lenta e, por vezes, angustiante) tornam tudo mais interessante.

Guimarães Rosa merece respeito por ter criado essa obra. Aliás, um livro que começa “nonada” e termina no infinito (∞) merece respeito. Não só pela genialidade da linguagem e da narração, mas também pela beleza. A história de Riobaldo e Diadorim é, de fato, uma das mais bonitas e bem contadas histórias de amor que já vi. A despeito de toda a complexidade e dos questionamentos de Riobaldo sobre o fato de ser um amor impossível, é tudo tão simples quanto observar as flores ao longo da margem de um rio. São os pequenos gestos, os momentos de observação, os olhos, as palavras. É ao mesmo tempo tão simples e tão complexo que parece que somos nós mesmos que estamos pensando e relembrando aquilo, e talvez por isso seja tão emocionante e real. Pois, ao mesmo tempo que cada frase é como um soco no estômago pelas tantas verdades, há também uma espécie de conforto. É como se alguém nos soprasse no ouvido as palavras exatas para o que queremos expressar e por tantas vezes não conseguimos.